[acordas com o susto…]

acordas com o susto da madrugada rodeada pela frescura do orvalho. despertas como as flores de sol na boca tapada.
atravessas a cama e abres a janela que dá acesso ao lado do mar e todo aquele mar invade-te o coração doce. comoves-te. não choras.

não te encontro em lugar nenhum ou então já aqui não estás para te dizer que te procuro no sono da noite.

estou deitado sobre uma tapete de erva verde prata, escuto a voz da lua a embater contra o mar de beleza. as estrelas dançam e rasam as outras estrelas. apaziguam a dor do desconforto.
depois, ato-me entre a distância das estrelas com uma corda de safiras e de uma ponta à outra: e eu danço loucamente.

procuro-te sem saber o porquê. julgo que o teu súbito desaparecimento não remedeia o perdão ou enterre os maus entendidos que nos afastaram um do outro. é muito triste: nós sabemos. permaneço prisioneiro da minha tristeza e alegria de viver.

ergo-me dentro de mim próprio com as forças matinais para te pedir que me perdoes.

o mar é uma ausência de ti.
incendeio as folhas de papel que vou escrevendo. ardo desde as pontas dos dedos aos pulsos.
peço ao mar que me apague as queimaduras e com os fios de sal me limpe as feridas e me cure.

no entanto o mar que és, permanece escondido nalguma estrada, edifício, rua ou cidade subterrânea sem avistamento porque não te consigo ver.

perdoa-me se te magoei e te peço uma só derradeira oportunidade de nos conhecermos e dizermos: a beleza.

 

«cartas», filipe marinheiro, 2016

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