[numa ébria…]

numa ébria noite de leve cumplicidade rodopiavas infinitamente o quanto restava de ti roçando o longo casaco de veludo avermelhado rente ao meu corpo espalhando um aroma de sedução atirado pelo ar denso encharcado de cinzas e poeira.

voltavas a passar-me uma e outras vezes sem precedentes como se estivesses prestes a morrer em curto-circuito.

corrias sempre à minha frente, não conseguias parar, permanecer quieta ali, e de imediato ou súbito fixei a luz sensível por detrás dos teus óculos pretos.
contemplava uma beleza melancólica e abstracta. frenética.

doutros corpos que se agitavam contra a melodia escorria-lhes aquele vapor de transpiração molhada colando-se-lhes as roupas à carne desértica. uma carne esquecida nalguma adolescência fugitiva ou nalgum prolongamento da memória alucinada.

dançava tudo doido. descolando os ossos da pele tão vasta.
pessoas freneticamente contorcidas pela loucura noctívaga de lume sonoro e das drogas ingeridas como transparências daquilo que são.

mais uma vez voltaste a passar-me diante o rosto vestido de barbas num vaivém etéreo. talvez eu emanasse algum brilho de mar cristalino ou de mistério lunar quando esbarrávamos olhos com olhos ou outro mistério maior.

estremeceste a minha cabeça como se me tivesses desatado a abanar as têmporas ou desatado à marretada dentro do meu cérebro dentro.

delicadamente como uma força de rasgo que vem do interior através entranhas tive que te tocar subtilmente por sobre a palma da tua mão direita. acariciando-a com limpeza e paixão. ias deixando-a permanecer ali sob o peso da minha mão e ias regressando sem saber porquê.

depois, flutuei até ao recanto da sala onde dançavas amarrada a ti própria e ergui-me para dançar doidamente. sabia que desconhecias
a minha enormíssima franja pelo meio do cabelo. inclinei-a, estiquei-a, apertei-a para tu a veres. voava enrolada nela como se enrolasse no teu nómada corpo.

fomos felizes naqueles solarengos momentos: expugnáveis. inadiáveis. soltos sem destino ou morada. ninguém se apercebia dos beijinhos que te dava na face junto ao pescoço arrepiado. apreendi-te o odor doce da tua pele macia. sussurrava-te coisas mirabolantes.

pois é, só nós detínhamos a chave daquela fábula subterrânea.

mais tarde antes de rumar a casa agarrei-te com determinação e fôlego nessa tua silhueta de cisne, arrastei-te até aquele corredor escuro, paralelo ao bar que já não existe. voltei a tua boca contra a minha e sem o teu consentimento e inflamado pela alegria, beijei-a: a boca toda.
não sei se te recordas todavia o beijo, esse, foi correspondido na própria boca fechada. arterial.
eu sei não estavas em ti.

desculpa meu querido amor preciso que me perdoes no tempo e na oportunidade que se calhar nunca me darás para estar perto de ti.
ainda hoje guardo com magia, inocência e nostalgia os teus lábios de flores.

sabes, por vezes, apetecia-me acordar a teu lado percorrer-te o corpo todo numa doçura de beleza inseparável e envelhecer contigo junto ao sol misturado ao mar. eis uma viagem que podemos ainda percorrer. beijo-te

 

«cartas», filipe marinheiro, 2016

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