[uma misteriosa noite…]

uma misteriosa noite colei-me aos vestígios do teu doce corpo, cúmplice da beleza abstracta. sussurrei. recordava. observei: escutava a força daqueles movimentos interiores e anatómicos
– que beleza correcta via.

encontrava-te onde te perdia. fugias, voltavas. e eu, aproximava-me do teu perfume curioso.
embatia contra o brilho cintilante do teu olhar cósmico, visceral, misterioso. mantive alguma distância sobre uma espiral de passos – triste, desiludido, magoado porque não sabia como te atingir com um sol de mar e dizer-te o que sentia. dizer-te da bondade e do despertar da vida feliz.

rodopiavas leve, solta, absorta tal uma bússola confusa sem sentido ou tal uma ave sem asas fortes. asas doiradas a pétalas coloridas.

via-te a flutuar nómada rasgando a minha carne frágil e os subúrbios da escuridão de um lado para o outro como um furacão de flores exóticas a dançar entre os fios de música e as labaredas de fumo. dançavas toda em sedução com as mãos livres pelo ar a arder quase a roçarem de encontro às minhas mãos de seda.

verteste gestos de noite, vigílias, alertas até à superfície das veias, olhares desconfiados, sorrisos contemplativos. só podias ser eras um verdadeiro anjo caído ao acaso do céu esplendoroso.
céu ausente e alegre.
assim te senti como num solitário sonho…

inesperadamente acendi o cigarro agarrado à tua boca meiga e fumámos inspiradamente a overdose do desconhecido.

levitaste dentro de ti mesma. descobriste a minha fala sem sentido. enganaste-me para te protegeres: eu sei meu amor que não me reconhecias ainda. e reconhecerás?

persegui-te contra a minha razão ternurenta por entre a multidão bêbada porque no mais profundo de mim sabia que nos merecíamos, mas não naquele momento, naquele lugar inclinado.
quem saberá se merecemos uma oportunidade. uma única oportunidade?
seria um milagre belíssimo até não querer mais…

deixaste-me abandonado ao meu próprio fracasso que assumi melancólico.
senti os incêndios do abuso das palavras a deflagrarem, a estrangularem-nos as gargantas húmidas, gélidas ou o estrangulamento talvez não passasse de um mero vislumbre luminoso da paixão ainda em forma duma mera expectativa. de nada valeu ter-te assediado daquela invasiva maneira com tantas palavras e bocejos noctívagos. errei. devia estar a sonhar impassível.
não importa, porque assumo o erro que me apagou quando te toquei com os dedos acesos de água morna.

depois, determinado em murmurar-te mais algumas palavras sentidas, iluminadas. somente palavras para vestirem as tuas não desisti de ti pois és preciosa demais para isso, então:
esperei. esperei. procurei-te. finalmente encontrei-te e decidi persistir, persistir com o coração aberto às tempestades e aos jardins fabulosos que um dia iremos ver juntos…

[jamais desistirei dessa tua beleza certa. beleza inquebrável. beleza hipnótica.
estremeço de alto a baixo. comovo-me só de pensar em ti porque tens a beleza que admiro.]

lembro agora que lá fora a paisagem chovia em redemoinho de ventos desérticos, cortantes.
prendeste-te aos ombros da tua querida amiga suspendendo os cabelos entrançando-os nas artérias da neblina espessa. enrolaram-se uma na outra com muita destreza corporal hábil. tu maravilhosa.

rumaram subitamente em direcção aos barulhos misturados das pessoas aos berros em plena voz e timbre trémulos, do alcatrão molhado à tona no chão, das redes de metal a dividirem os espaços, das casotas de madeira desfiguradas, dos pórticos de entrada com os seguranças a conversarem entre si sem querer saber de mais nada, das luzes da rulote das comidas plásticas, fritas a estilhaçarem as peles de todos que por ali caminhavam sem um destino certo.

os rastos desses ruídos, dessas vozes contorciam-se nervosamente para conseguirem erguer a brisa das memórias e das paixões por ferverem pelas saudades da ausência ou pelos acasos da vida.

[aprendemos e desaprendemos, é isto, quem sabe a vida a viver…]

quase cantava a madrugada mergulhada no nevoeiro quando surgiram os frenéticos autocarros encharcados de pessoas loucas e mais pessoas silenciosas. assemelhavam-se a longínquos túneis de aço abanado pelo uso gasto das máquinas que trituraram muito asfalto.

tentei usar as últimas palavras desesperadas que eu sabia deslizarem bondosas pelo rosto abaixo. as palavras inundadas de orvalho não me deram sorte. confesso que no mas íntimo de mim derramei vagarosas lágrimas sobre a sinceridade de quem sabe que tudo não passou de um mal entendido. um equívoco de percepção ou vertigem óptica aceitável.
aceitei. tive que aceitar.

por fim desisti.
a modesta salvação seria o meu repentino desaparecimento sob as estradas molhadas por folhas e ramos a girarem sobrepostas onde as árvores se confundiam com a tua sombra – contigo.

meses se passaram e nunca desistindo de ti encontrei-te de novo como a espuma escorrega por cima da onda do mar azul marinho. fui-te escrevendo com carinho e saudade ausente: o silêncio, a paz, a felicidade ou para te dizer que talvez te ame na oportunidade que poderemos vir a dar um ao outro. deverás anotar que não a irei desperdiçar em momento algum. fixa-a.

gostava de perder-me em redor à tua alma de mel e açúcar porque não sei como comover o teu cegante coração, e amar-te docemente até envelhecermos de lábios dados à beira-mar.

 

«cartas», filipe marinheiro, 2015

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s