[certa noite…]

certa noite a arder como um íngreme mar colorido, ergueu-se um luminoso feixe de sorrisos, um ciciar vagaroso mergulhando noutros corpos atentos, gestos esvoaçantes, olhares a guardarem beijos para mais tarde talvez quem sabe se amarem ou uma navegante paixão por entre a penumbra da sala corroída pela sombras e névoas vermelhas a queimarem as luzes aéreas.

vi a acenderem-se rachas, fissuras nas paredes côncavas a chorarem de comoção e sedução. vertiam-se bebidas, músicas, timbres, espelhos oceânicos… toda a desarrumação daquelas velhas mobílias carcomidas a desabarem pelo tempo só. tempo muito só. tempo triste. tempo de solidão. aquele fabuloso tecto tatuado por figuras, saliências, frisos, gesso, lixo, insectos, curvas: geometrias melancólicas impassíveis.

as varandas interiores a cantarem à ninfa do mar – flores de estrelas e o ouro do meu corpo rijo a assolar-te com curiosidades bizarras. estranhas. assustadoras quem sabe senão a memória acordada antes mesmo em ti. desassossegaste-me o andamento. as horas sobre o arco-íris a irromperem toda a beleza abstracta. beleza delicada.

tremi. tremeste. vigiei-te a alma, o sol nocturno à deriva por ai. vigiei a textura, a substância subterrânea dos teus lábios curvilíneos, macilentos, redondos. lábios seda. dulcíssimos.

todos os objectos, ar, pessoas esfumando-se contra o doce estremecer da cadeiras sob as mesas celestiais. na força centrífuga o teu louco rosto abanava, em câmara lenta, duma margem para outra. impediu-me de te acenar anónimo ao desejo que senti invadir-me o coração de mel.

flutuava suspenso pelas minhas barbas: enormíssimos fios de sol ermitas até ver-te sussurrar de ouvido em ouvido, qualquer coisa movendo para uma outra coisa, talvez ousada. sincera. não sei. não sei se me derrubaste as trevas que carrega em mim ou me deste algum ânimo, alívio para esta vida morta. sem grande interesse. só tu. só tu. cerrava as pálpebras no esbatimento cardíaco – enaltecia-te pelo noite dentro.

tempos depois, entre tantas travessias sombrias sem que nada se desencadeasse – o fogo dalgum toque em ambos os corpos estranhos ou dalgum abraço, carícia ou dalguma ferida e cicatriz ou ainda dalgum beijo perpétuo até desaguar na eternidade adentro…

e sei agora que tu não o consentias porque tinhas algum receio, insegurança, vergonha, timidez mas acima de tudo não querias apagar as labaredas desse desejo a murmurar talvez de paixão arrebatadora ou somente uma curiosidade ou uma provocação ou um aceno meigo.      percebe-te tão bem. contudo, sinto-me afastado tanto de ti quanto de mim lua de deserto.

you are my silence. i’m the silence. fuck. it’s all true. the world is burning a body of lies. i’m not.

e ao escrever-te tudo isto, inundado de dor cintilante, sofrimento que se tece na cabeça por sobre os órgãos a esmagarem-se nas veias reflexas. lágrimas de açúcar a deslizarem para a boca fina. melancolia nos pensamentos e ideias. sons a palpitarem nas vidraças do meu quarto ao lusco-fusco. timbres a nomearem o medo e a rejeição. toda uma desolação aonde a  esperança sem esperança atraiçoa os corpos rastejantes. pétalas a bailarem no peito rasgado à terna felicidade. aromas a oscilarem na ponta dos dedos fecundos. tristeza a perfurar-me as palavras que te escrevo. as magníficas cores a deitarem-se dentro das palavras. alegrias nos cúmplices caminhos a inclinarem-se para nós.

então, gravei todos os teus movimentos de loucura nos pulsos a ferverem de futurismo. enumerei-os vezes sem conta defronte à suave brisa do belo entardecer. sol a pôr-se sulcando, espalhando os poços de luz contra a carne viva e atenta. carne exacta. excepcional.

cantava-te a imensidão do mar prata e as aves com asas de arte a planarem rente a nós.            não me ouvias? os sinais? os rumores? os pirilampos? as magnólias e os girassóis a entrançarem-se nas colinas desta vida fabulosa? a meditação intrínseca? quanta distância entre o meu corpo e o teu. porquê? nunca te persegui ou ousei-o fazer. criatura angelical. deixa lá, não ligues, talvez esta escrita não te diga realmente nada. não te aborreças. canto-te até à exaustão da madrugada.

mas jamais deveremos destruir tudo aquilo que construímos num único e exclusivo momento, mesmo que invisivelmente, sem recados escritos à mão ou o desmoronar de moradas sem destino ou rumo para sobreviver sem ti nalguma terra sem nome ou razão.

tudo se apagou à minha volta, derreteu-se… menos tu, a beleza luz rodopiando entre o corredor exíguo, corredor estreito a saltitar de porta em porta, e a palma da mão esquerda beijada com subtil beleza absoluta.

disse o jovem poeta arthur rimbaud em 1871: «qualquer coisa que mantenha as famílias, casais juntos não é amor. é imbecilidade. egoísmo ou medo. interesse pessoal  numa ligação baseada no proveito pessoal existe. o prazer existe. cumplicidade existe. mas não o amor.  o amor não existe. o amor deve ser reinventado…»

«o amor não existe. o amor deve ser reinventado

podem semear as trevas, a maldade, os sustos, a inveja, a raiva, o ódio, a miséria ou mesmo a morte compacta. podemos continuar a acender cigarros, lume ao mesmo tempo ou se quiseres poderemos esboçar um desenho a rir-se. íamos memória em memória fumando cada uma no seu alcance. outro cigarro. outro poema. outro verso. outra estrofe alquímica.

c’est l’amour dans le bleu. maybe a ilusion. maybe a kind of poetic words. maybe… a open window into the poem. vient… i want to know you better like a sunshine star. so silence. l’a vie. l’amort.

eis que me ergo das profundezas da lava sísmica universal como um céu azul solar com asas transparentes, repleto por forças e certezas. tomar-te-ei nos meus elásticos braços de água. quem sabe um dia beijar-te infinitamente.

sei lá, temos tanto tempo de sobra aonde a vida começa uma nova rota e reinventar-mos o amor e envelhecermos juntos à beira-mar…

filipe marinheiro, 2015

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