Poema de Mia Couto

A Mãe e a Nuvem

 

Choras, meu filho?

 

Olho os teus passos

como um semear às avessas:

a terra é um arado

sulcando os teus pés descalços.

 

Cada lágrima tua

abre em mim

um dilúvio sem ilha.

 

És o reverso de um parto:

refaço na carne

o milagre de que ressurges menino.

 

Mas não te dou sapatos

que dinheiro não tenho.

 

Com os meus próprios pés,

invento a ti

um chão sem grão,

todo feito de algodão e sonho.

 

Com as mãos em chaga

enterro a prometida nuvem

onde esperava um repouso de paraíso.

 

E volto a falecer

para sarem os teus pés.

 

E assim,

adias no meu ventre

a vida de uma outra vida.

Da terra retiro a semente

e devolvo-a ao fruto em que morei.

(In: Vagas e Lumes: Caminho)

Mia Couto

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