O BAR DO BEIJO

Todo cronista entende de memórias de bar. Sentado sozinho na mesa, quantas vezes, quem nunca? Destino certo daquele que não suporta nem a própria companhia. A noite é uma mera sucessão de horas indistintas, pois se parecem e passam inexoráveis, mas também sozinhas.

Em certas noites há o violeiro, o cantador do sereno, do amor, seja ele correspondido ou não. Ele sempre fica no fundo do bar. A luz sempre falha ali e às vezes ele perde a letra. Fundamental é não deixar de se envolver pela noite. A bossa soa como se a noite emanasse do violão. As pessoas movem-se lentas, escorregam pelo balcão. O cachorro chega sonolento, como que em câmera lenta – poderia ser também efeito de alguma luz estroboscópica – , e cheira as pernas de todos. Neste momento, o violeiro está tão intimista que o cachorro se chega como se ali houvesse um tapete. O lugar era dele, sob o calor das luzes, que nem acendem mais. O cachorro se deita no lugar onde se iluminaria, caso as luzes funcionassem – sabedoria animal, certamente. O cachorro é o cliente mais antigo dali.

Nos bares mais sofisticados há mesas para fregueses espaçosos e estes, são chamados de clientes. Não é deste lugar que estou falando. Embora exista uma mesa e meia no salão. Há uma mesa e mais quatro cadeiras extra, estas contam como meia mesa. É tecnicamente a mesma coisa, só que sem a mesa. Há uma televisão, que quando não habitada por poltergeists, exibe imagens em vermelho e verde fora de sintonia. Não dura muito. Ninguém ousa desligar esse aparelho. Ninguém menciona que o bar foi erguido com o suor de descendentes de escravos que ainda eram praticamente escravos. Morreram ali, mas não se sabe a história. Eles nunca veriam um aparelho de televisão. O dono do bar diz que por isso não permitem que as imagens fiquem nítidas. Algo como suas freqüências serem próximas. Coisas da ciência inexplorada dos ectoplasmas.

O bar é um ecossistema não estudado. Os estudantes de biologia esqueceram aquele habitat. Alguns cronistas apenas observam, outros não conseguem erguer a cabeça do balcão. O violeiro anterior a este, maledicente, dizia que chutava rato morto enquanto tocava. O dono não gostou. Os fregueses, se conseguissem levantar a cabeça das bordas das catuabas, quinados, traçados e afins, também concordariam com o dono. Maledicente o rapaz, o rato, que era vivo e atuante, antes de dormir fazia o serviço do cachorro espantando os gatos da casa. O dono sente falta do rato. O dono não sabe o nome do cachorro, mas o rato era quase da idade do filho dele.

O filho do dono do bar ficava no caixa e ria com mais dentes que um pacote de pastilhas de hortelã aberto. Nas noites de violeiro, a namorada senta com ele no caixa e pede músicas. Ela gosta de digitar os números e ri quando a calculadora faz um barulhinho calculador. A tecnologia é porreta, ela ria.

A televisão funcionou quando as Torres Gêmeas foram alvo. Alguém levantou a cabeça e pensou que fossem fogos de fim de ano – adiantados, claro. De certa forma, foi mesmo um fim. Quando o presidente negro assumiu o aparelho transmitiu em três cores. Os funcionários passaram a achar que o poltergeist de escravos expressava sua opinião assim.

Uma vez alguém entrou acompanhado. Os bebuns ombreando o balcão levantaram a cabeça. Eles sentaram na mesa, na única mesa. Ela não quis colocar os braços na mesa, era grudenta. O dono passou um pano. Ficou grudenta e molhada e ela fez nojinho. Ele pediu um quinado. Ela disse que era quente. O quê? O lugar, a bebida ou a atitude? Ele disse que o beijasse que ele também estava quente. Foi um beijo pensado, sem abraço, mas sentido, sem língua, mas com entrega, e sincera. O violeiro parou, o cachorro latiu, a televisão funcionou (o filme da sessão coruja era uma pornochanchada, e o filho do dono riu). Os cronistas acordaram e o dono achou que era um gol do América que era comemorado.

Desde então, o bar dos maus companheiros de si mesmo chama-se Bar do beijo.

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