[todo o poema quer tudo para ele…]

todo o poema quer tudo para ele
rompendo as costuras da pele panorâmica lá por dentro
palavras anónimas
saltitam no sangue da carne e da carne para o sangue
interno arfando
como a puxar a violência líquida
do amor da paixão entre estados de espírito

em redor completo
a confusão de espelhos crescem seguros e imaturos côncavos
porque a mão do poeta move-se feroz e insegura
mão obscura essa
enquanto esmaga com toda uma força invisível
afundando a sua sombra sobrenatural em abandono

e o poema escorre sobre a tinta exterior das folhas a arder
num gesto absolutamente moderno

levitam raízes cheias de mundos inexplicáveis
universos que podem nem mesmo existir genuínos na cabeça
do poeta a tombar
sobre a inspiração impenetrável
como a fazer amor com a poesia e o poema
assassina o silêncio inquieto onde tempos depois renasce o sol
e a lua constelações que sopram ao sangue
talhando as veias
atómicas

sem perceber disso
o poema rebenta com o ar que dorme sem saber porquê!
dorme na confusão meiga de todo o poeta
com os olhos a girarem
na humidade da terra fresquíssima

as luzes das trevas erguem o poema excepcional exclusivo
quando nada o derruba
ele abana os mistérios da harmonia mas sangra o tempo e memória
passada futura presente estilhaçando as veias
redondas longilíneas
contra os corpos humanos e inumanos
e cada estado de espírito é um profundo abismo
as luzes dizem-se secretas e desordenam o sol e a lua
luzem-se um de encontro ao outro
– procuram-se: amam-se

o poema escuta-se e ouve-se sem as palavras
o poema e poeta surgem muito sós
sofrem insónias vigílias
e vidas ocultas numa doçura que asfixia e aniquila
sobrevivem ao tempo e à memória
o poema evolui em todas as épocas e estilos
– revisita-se
e ninguém mas mesmo ninguém neste ou noutro planeta
lhe fica indiferente
o poema é extraordinariamente eterno e imprime o medo

 

filipe marinheiro, em «noutros rostos», chiado editora 2014

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