ODE ESTRANHA

Da morte eu lhe direi as entranhas, o po-
ro, o ósculo, o caminho entre vál-
vulas, a passagem estreita, a golfa-
da, a bile naufragando, os órgãos em cal-
do ácido, uma bolha de metano que
exalando calor e sibilando um cer-
to ruído profano, abre-se. As memó-
rias de Zurique, os ventos de Belchior, o trân-
sito de Mercúrio, o dia passando na
alameda sombria, Zéfiro de páginas
amareladas, o seminário dos cala-
dos, as fantasias sorriam em disparada,
os paralelepípedos em displasia. Ár-
vores semicerradas na paisagem. Quem sa-
beria o som que faz a romaria? Não sendo
vida, quem saberia? Escolha apenas a
palavra frígida. Uma palavra ruga,
entalhe, ruptura, a marca dos dias, o
sabor da rua, os carros passaram, também o
cachorro, o vendedor de picolé não é
mais moço. Uma palavra carranca, abre-se o bar-
co, desfaz-se toda tranca, fere-se o céu
acima, cinde-se a onda abaixo, no
cimo do casco, carícia, penhasco, pesa-
delo, desejo, aquela que afogou-se
em seu peito. Uma palavra tripa, contra-
tura, tubarão na barriga, linguiça, lom-
beira, vilosidade, inchaço, ferida,
genuflexório, corrida de pique, coisa
funda, gordura encruada, aquilo que
se cala, grito no ralo.
Da morte eu lhe direi
das minhas entranhas,
qual vapor oculto:
Ninguém mais é puro!

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