A VIDA NÃO TEM JEITO

– Vou sair.
– Vai pra onde?
– Pro Centro, na praça.
– Vai sozinho?
– Não, o pessoal da escola vai estar lá e os professores também.
– Vocês deveriam ir pra aula.
– É atividade extra-classe. Aula na rua.
– Olha se isso acaba em confusão.
– Claro que não! Atividade ao ar livre, nada de mais. De vez em quando é bom sair da sala, viu?
– E precisa levar mochila?
– Como assim?
– O que tem na mochila?
– Um bloco, uma caneta, outra camisa…
– Leva água!
– Vou pegar uma garrafa agora.
– Tem na geladeira.
– Não né! Coloquei água num pet de refrigerante. Eu posso jogar fora depois de beber.
– Deixa o dinheiro da passagem separado.
– Está separado no bolso de trás. Fica tranquila.
– E volta quando?
– Não sei. Antes de anoitecer. E pára, que a senhora já está fazendo inquérito. É uma aula como outra qualquer, só estaremos na praça. Tá bem?

Despediu-se com o sorriso trincado, como de costume, mas feliz porque o garoto parecia ter entendido tudo. Afinal, não havia por quê se preocupar. As notas estavam altas, então tentava não se opor muito aos programas do garoto. Ele não era tão diferente dela mesma na idade dele. Ainda observou pelo muro baixo o garoto descer a rua até o ponto de ônibus. Depois retornou para dentro da casa e começou a organizar as costuras da tarde.

Com a casa silenciosa, parecia que o tempo se desdobrava. Começou com os consertos simples, botões e bainhas que os vizinhos traziam. Ela mal cobrava por certos consertos. Muitos vizinhos a ajudavam com outras coisas, então não se sentia confortável em cobrar. Mesmo assim, se não pagavam, retribuíam com um bolo, uma carona ao posto de saúde, livros pro garoto, o que conseguissem pensar.

Terminou as costuras miúdas e resolveu pegar na cortina que preparava. Estivera na sala da cliente semana passada e fez as medidas precisas. O pano lhe fora entregue logo em seguida. Tudo chuleado com esmero. Aos olhos de todos estaria perfeito.

O sol descia e ela pensou em passar na cozinha para uma pausa e um café. Foi quando a Norminha entrou e perguntou se ela estava com o rádio ligado. Não estava, mas precisava ligar. Já que a Norminha havia entrado, que esquentasse o café. Ela pegou a manteiga e o bolo de fubá. Ligou o rádio e perguntou à amiga o que se passava. Norminha nem precisou se explicar, o rádio já interrompia os comerciais para notícias de última hora.

– Está acontecendo um tumulto no Centro, a polícia está com o batalhão todo na rua.

Enquanto isso a vinheta elétrica, que sempre introduzia as piores notícias, rasgava a tarde e cessava para a voz metalizada e com um reverb funesto, que dava um tom macabro à voz do locutor de notícias policiais, que transmitia ao vivo, in loco, o tumulto deflagrado no Centro. A polícia havia localizado uma célula de subversivos em plena luz do dia. Todos em uma concentração, ou comício, não sabiam, mas estando na frente à Câmara dos deputados coisa boa não seria. Todas aquelas pessoas ali, sem um rumo aparente, alguns estavam até sentados no chão, enquanto os líderes pregavam palavras de ordem para quem quisesse ouvir.

– Esses subversivos não tem mais vergonha na cara. Imagina, se reunir sem nenhum motivo na frente da instituição política mais séria da cidade.

Ouviam quase atônitas aos berros ao fundo, que rasgavam a narração na voz indiferente do radialista, que dizia que polícia apenas cumpria seu dever. Eram tempos perigosos aqueles, em que uma pessoa não podia mais sair à rua sem correr o risco de esbarrar com uma manifestação suspeita, um grupo de arruaceiros, havia vagabundos em cada esquina. Era preciso ter esperança que tempo melhores viriam. A vida não tinha jeito assim.

Ao final do dia, estranhou que o garoto não veio. Perguntou pra Norminha se o filho havia voltado pra casa; voltara. Atravessou a rua e perguntou do filho da Fátima; voltara. O filho da Clementina também. Todas consternadas, desconversaram. Até o fim da noite todas reuniam-se na sala dela, que não entendia com clareza o que as amigas tentavam explicar. Era aula ou não era? Era, mas a polícia não quis saber. Foi truculência, alguém gritou. Não foi consolo, ela agora entendia menos ainda e alguém tinha que dar um jeito que ela queria o garoto de volta em casa. Onde que tá?

Depois das nove da noite, dois homens de farda entram pela casa, seríssimos com notícias ainda mais sinistras que o cinza das roupas e o ruído de botas. Olhando as luzes vermelhas do giroscópio da viatura parada em frente a sua casa, ela levou as mãos à boca e entendeu.

– A vida não tem jeito, viu Norma?

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