[a casa…]

I

a casa
onde espero habitar um dia
cega as pedras líquidas
e flutuo nelas abaixo

II

há então uma muralha em volta
como um cordão de flores bem cheirosas
um chão movediço que aprende
a ser uma rosa a nadar
nesse vento
ainda por irromper

III

a muralha no fundo da muralha
racha-me ferozmente
os olhos por dentro
e as flores saem-me das pálpebras
a sentirem-se mal consigo mesmas
sem luz polar
sem noite por acender
à avalanche de perfumes puros

IV

era uma casa de que ninguém
queria falar porque distraía os dias
que nunca mais se passeavam
no espelho da alta lua em órbita
como inércia
na minha língua
a assombrar os prados à volta

V

pássaros de lã observam-me
com ligeira atenção
e fazem inundar a terra distraída
com as suas asas tenebrosas
sombras corporais despiam-se
nos flancos do silêncio
e esse silêncio estremecia na penumbra
gota a gota invertendo
para o pátio de seda o calor
desse cântico mar muitíssimo sorridente

VI

depois
com os meus dedos emaranhados
nas cortinas em brasas faço girar as janelas
para a latitude do mar
e todo aquele verde dourado mar ameno
embate na minha boca adentro
tranquilizando-me
desejando-me

VII

dou voltas à casa
sem caminhar espio a sua alma
que se dobra
para as árvores com frutos aos nós

VIII

as frutas sensacionais vertem
luz metálica
até esquartejarem aqueles curvos pássaros
todas as plantas prolongavam
a seiva matinal
onde o ar turbulento
esguichava o sal louco
contra os filamentos de sebes
que revestiam a casa por abrir

IX

do telhado em marcha
limpo as cinzas
do esvoaçante plâncton
entre muros e vidros
que incham nas pontas
devido à extrema violência da maresia
todos os objectos cortantes
estavam deitados em cima ao acaso
entrelaçados uns nos outros
nas mesas ligeiras
e as cadeiras bailavam nos parapeitos
cheios de pó diamante
por baixo das cadeiras
alguns punhais
rasgavam imaculadamente as patas
de animais minúsculos
animais vindos do mar lá longe
as minhas mãos
seriam agarradas pelo sol e a brisa

X

as ervas
com as suas radiantes mandíbulas
mergulhavam no mar amplo
onde o néctar do céu
despia as volumosas ramagens
que batiam e batiam nas telhas vermelhas
e ao tactear as telhas inferiores
batiam de novo levemente
nas folhas ofegantes
em tom de antiquíssimo verão

eu era seduzido
pela sua circular aragem
e num arrepio marítimo
tecia buracos d’espuma campestre
e as meigas tardes
naquela misteriosa casa
que um dia irei habitar
engoliam o mar com que me vou…
completaria aquela angelical casa

 

filipe marinheiro, em «noutros rostos», chiado editora 2014

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