4 CENAS DO CÃO ANDALUZ

I

por que um cão sangrento
atravessa-nos à noite
e reduz a lua com
seu brilho no esgoto
numa parca brancura
disforme moldada
ou uivo do mal agouro
encarcerado/ sombra des-
fragmentada num osso
de nossa própria (in) existência
as vísceras repugnantes
à mostra para consumo
da matilha e suas fartas mandíbulas.

II

O ventre exaurido do parir eterno
constante:
palavras, palavras, versos
desarticulados/ disformes
e tão orgânicos.

III

costumeiramente rasgados
no cordão arrancado
com navalha fria, afiada
bem trabalhada.

IV

no rescaldo de tudo
o cão – o grito
se deita – carne viva
restos da pelagem
moldura mórbida estática
da sala de jantar imponente
com seus móveis discretamente apoiados
em calços vermelhos e
nas sombras tortas desfocadas
de todos aqueles animais mortos
da família – empalhados
o sangue que ainda respinga
pisado.

Leandro Rodrigues

de Aprendizagem Cinza, Ed. Patuá, 2016, págs. 41 e 42

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