OLÍMPICA

Era uma tarde quente de janeiro quando, correndo entre as casas, o menino notou uma cortina enfunada e volteando por fora da janela. A casa tinha um muro baixo e de certa forma não se podia dizer que era segredo o que se passava lá dentro. Um dia claro como aquele, todas as portas abertas, e a luz devassava a vida com a naturalidade da pele exposta no verão. Era verão, mesmo assim a brincadeira escolhida era o pique-esconde, valendo por quatro quadras em volta da praça.

Ele parou no meio da calçada, exposto à busca implacável da brincadeira. A mente inventara um mistério que precisava ser desvendado e estava entre as cortinas da casa de muro baixo. Não notara antes naquela casa, não tinha certeza quem morava ali, mas ela se destacava pelo reflexo nas paredes que permitia que se adivinhasse uma piscina. Aquele reflexo azul, quase  com vida própria, misto de sonho e dança de luz. Tinha que ser água.

Entretanto não foi isso que o interrompeu. Foi um movimento intuído, quase adivinhado dentro daquela casa, algo desconhecido, uma presença, uma sombra, uma marca, uma linha, uma brisa, uma perna. Esta logo seguiu-se de outra e os olhos correram primeiro para os pés que pisavam com as pontas, quase flutuando. Ela vinha em um rodopio, arrumou a posição da tanga na cintura e ao virar-se fez com que as tiras da parte de cima do biquíni rodopiassem, soltas, como as linhas de um lenço, caso houvesse lenço, este seria invisível. A dança da liberdade, o sorriso da brincadeira e a oportunidade de estar no lugar certo na hora certa. Apenas não era o amanhecer perfeito entre as montanhas, era o amanhecer do entendimento do corpo. Das maravilhosas diferenças que nem toda a sua vida bastaria para encontrar um modo de definir aquela visão delicada de seus olhos encontrando a sensualidade da menina. Mais tarde sonharia  a textura e o tamanho (inteiros nas suas mãos). Naquele segundo de redenção, o que se seguiu foram os olhos amendoados entre os cabelos que encontraram os dele no meio do segundo rodopio.

Não fosse pleno verão, poderia jurar que os joelhos congelaram. Era preciso coragem para não correr, para não tremer, para não balbuciar, para não vacilar. Mas o quê? Nada poderia preparar ninguém para algo assim, para um momento assim. Os segundos que valeram por séculos, a apneia que quase causou sua morte cerebral, ali mesmo, na calçada, na frente do muro, diante da janela dela, na frente dela. Que morte terrível, mas que fim glorioso depois de ter descoberto que a vida era bela e muito mais excitante que o jogo de pique-esconde das férias. Era agora, não havia o que fazer a não ser aceitar o desfecho reservado aos espiões descobertos.

Ela aproveitou os mesmos segundos com uma elegância olímpica. Parou o rodopio quando os olhos se encontraram e sem tirar os olhos dos dele nem um segundo, pegou uma tira, depois outra, amarrou-as com um laço nas costas, depois ajeitou os triângulos de tecido lentamente; primeiro o direito, com as duas mãos e depois passando os dedos sobre o tecido para se certificar que cobriam exatamente o que foram feitos para cobrir; depois o direito, sem pressa, cuidadosa, diligente,  geométrica, sem respirar. Tirou os cabelos da cara e se aproximou do muro.

— Depois que escurecer eu vou pra praça, então quero ver se você continua sendo esse, que está no lugar certo, na hora certa, sem coincidências.

A voz da deusa eletrificou cada fibra, cada músculo, cada fímbria do seu corpo, do tutano ao tecido. Dali em diante nunca mais teve dúvidas, nem medo, nem voltou a brincar de pique naquele verão.

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