AGORA

Os dias se impõem, absolutos. Evoluem como rolos de fumaça. Acontecem nas ruas, no espaço além da janela. Não tenho um nome de que me lembre. Paira uma dúvida sobre memórias apagadas. Seriam recentes?
Observo, impassível, olhos resolutos, presentes, mas sem ação. Lá fora e aqui são dois espaços distintos e desconfio que o tempo não sucede do mesmo modo onde estou, onde penso estar e onde poderia estar. Deveria haver uma estação do ano que caracterizasse manhãs assim, em que o tempo não avança.
O real é um desdobramento que desconheço dentro de mim. Não obstante sei tudo que ocorre ao alcance de meus olhos.
Duas xícaras sobre a pequena mesa. Bebi o café de uma delas mas a outra permanece intocada. Há lençóis sobre o sofá, almofadas espalhadas e o ar parece não circular. Eu poderia estar respirando o tempo e não saberia. Sua permanência neste cômodo, lentamente parecendo tudo que sinto sendo e ainda assim, menos que lento, inverso, não acontecendo.
O mesmo lugar me persegue, como um barbante no rabo de um  gato. Reação por princípio, motivo sem causa. Percebo a máquina de escrever em um canto e uma pilha de papéis ao lado. Não lembro como surgiram ali. Eu não queria ter escrito, mas surgiu, talvez o quarto, talvez outro inverno, talvez o susto na pública do prédio. Alguém escreveu este inverno e fechou a janela para o resto.
Não há aquele perfeito momento certeiro em que tudo é como um livro de história; fatos e consequências.
Não há odor algum no ar e estou em um deserto de sentidos. A memória é um destes sentidos que mente aquilo que pensa.
Não há outras vozes ou anúncios luminosos. Pela janela apenas a luz cinzenta que pode ser até uma tela dessintonizada de um programação passada. Quisera saber o seletor de canais, como uma maçaneta desvela corredores, novas realidades. Em uma delas estarei eu, este cômodo e o ar cinzento desta manhã. Eu saberia por que a outra xícara está ali. Não haveria este tempo irregular, que respiro, contradizendo a vida. Não haveria eu, apenas esse tempo explícito gritando lá fora.
Agora.

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