MEUS MORTOS

Meus mortos dizem que o meu nome também está escrito nas cinzas.
Moram no ontem, mantém uma funilaria para esperanças fendidas.
Mordem-se de raiva de reformas, portas abertas e perfumes novos.
Memória mantida, brilha sempre uma chama fria.
Mudanças jamais, os mortos são o que são, inexistem em plenitude.
Promovem o inferno com correntes e cantoria, certas vezes arrastam a mobília.
Os malditos são insones e não me deixam dormir.
Meus mortos sentados na varanda, na pedra, na laje de mármore que se quebra.
Murmúrios velhos ressoam outra arenga, abre-se, mas quem fecha?
Não cabem outros que não meus mortos entre tantos absurdos.
Melhor segredar o que falam quando riem demais, não revele.
Morar no escuro lhes parece antiquado, meus mortos sentam-se no telhado.
Os pássaros noturnos congregados, todos no sótão, escribas aposentados.
Meus mortos empilham missivas de seu tabelionato sobre minha cabeça.
A poeira pesa-me nos ombros, são capítulos e escombros.
Mau olhado e mandinga: nada entra que já não pertença a esta casa.
Muitos não acreditam, não há alarde que revele seus passos no ar.
Ninguém sabe de meus mortos.
Mantenha em mente: quando meus mortos bradam, os fortes piam.

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