O DIA FEITO PRA PASSAR

Não assuste os fantasmas,
pedia a avó, delicada.
Rostos nos espelhos, ruídos nas aldravas.
Até mesmo silentes almas penadas
através da mesa, sentadas;
compartilhando momentos,
existindo, mas sendo,
em acepção,
nada.

A prima, perdida nas capas dos vinis,
ouvindo profetas negros e suas histórias.
Afônica, a não ser pela vitrola.
Então fechava os olhos e ouvia
uma sonata de cordas, cornetas
na encruzilhada invisível.
Ali, entre as almofadas,
pernas cósmicas e oceanos sob as saias,
sentindo o mar, sem mar,
nem nada.

Os cães redemoinhando no quintal.
Os lençóis quarando paz na terra.
Outras vozes soando pequenas.
As perenes antenas das árvores
de centenas de anos e seus ecos de ancestrais
desfazendo mazelas inúteis,
nós atados em rasgos furiosos de ar.
Perceba o absurdo:
não é nada.

O dia branco feito pra passar,
as palavras velhas no varal
perdem sentido como deuses desertos,
e a vida feita do é,
até que era.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s