FRAGMENTOS MARINHOS

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Um corpo que flutua não é mais que uma boia de carne que lentamente incha com a salmoura oceânica. Flutua; as ondas o acariciam. Não há saudade, não há remorso, morte já não há. Esta passou na outra maré e levou embora o ar que antes habitava aqueles pulmões.
Que massa estranha. Cheio de ar, pássaro não era. Terra ali não havia, que animal seria? Agora que a água em seu corpo habita não há vida em si e nem a vazia consciência de antes entende a deriva. Vida? Que vida? Há o quê além da deriva? Nem águas indecisas, apenas uma represa de marés infinitas e vazias. Água contida não faz a orla da vida.
Desvalido, sem sombra, sem céu ou motivo além do mar lhe invadindo até os ouvidos, comunga com as formas marinhas descarnando sua pele. As rugas vazadas, a memória escrita na cara e a certeza de que uma vez tocada foi amada; vaidades da carne que desaparecem nas investidas rasgadas de formas prateadas, seres de  cloro, sódio, sulfato, magnésio, cálcio, potássio e bicarbonato, sal, escamas e dentes, cartilagens impermanentes. O céu, este é azul, também pode ser cinza, outras vezes dourado.
O sol que mergulha nessas ondas é silencioso como todo deus culpado.

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