Conto de Wanda Monteiro

beijonachuva

Imagem: Pinterest.com

 

O BEIJO DA CHUVA

Quando ainda voava sobre os rios em que havia mergulhado a manhã de sua vida, ela surpreendeu o coração, desenhando, em pensamento,  a imagem da verde avenida.
A jovem senhora, depois de tantos outonos, voltava pra sua cidade ribeira de ruas molhadas e serenas que sempre dormem e acordam ao sabor das águas.
No caminho para o hotel, pediu ao motorista que fizesse o trajeto da avenida, ansiava ver a Praça da cidade.
Amanhecia, e ao passar pela avenida ela pôde contemplar as mangueiras que se abraçavam em copas, fazendo um arco sobre as calçadas.
As frondosas árvores formavam uma verde catedral e suas folhas coavam a luz do sol que chegava turva sobre ela. Ela sentia-se acolhida e festejada pelo verde vivo de suas folhas  e pelo cheiro doce de seus frutos.
Ao passar pela Praça, num impulso, ela pediu ao motorista que parasse o carro para que pudesse caminhar, pediu ainda, que acompanhasse o seu trajeto.
Ela tirou os sapatos, desceu do carro e, nesse exato instante, o vento fez a festa e a chuva já caiu dançando ao seu sabor.
A chuva escorria e com ela, corria sua memória.
Os coretos, os bancos de ferro, os lagos, as pontes, os pássaros, o gramado, Sentia o cheiro das flores, dos frutos e da chuva molhando a terra. O  sempre-verde-de-tudo.
Tudo era tanto que a fez inundada do tudo. E o fio do tempo laçou a jovem senhora para o tempo de sua remota criança.
Ela caminhava enternecida. Flutuava em cada cena, sorvendo-lhe a cor, o som, o cheiro – o movimento:
A criança, no colo da mãe, colocando suas pequenas mãos para fora da sombrinha, querendo agarrar a chuva, sorria pra ela.
O mendigo, embrulhado no cobertor de papelão, sorria pra ela.
O carteiro, debaixo de sua pesada capa amarela, sorria pra ela.
O casal de artesãos, carregando seus adornos,correndo psra o abrigo do coreto, sorria pra ela.
As belas putas que encerravam seu expediente, adornadas por coloridas sombrinhas, sorriam pra ela.
A chuva caindo, as imagens  trazendo , de volta, a menina que sempre fugia para as ruas quando  chovia.
Ela, menina, caminhava na chuva, quase levitando sobre o rio que escorria sob seus pés. E por alguns, ternos e eternos, minutos, ela ficou no arrepio do espanto, flutuando na sua infância.
Num gesto de reverência, ela parou no meio da avenida. E como se tivesse chegado ao altar, abriu os braços com as mãos espalmadas pro céu. O vento rendeu-se ao seu encantamento e sossegou. A chuva começou a cair feito bruma e afagou o seu rosto. Ela fechou os olhos, levantou a cabeça e ofereceu os seus lábios para chuva. O  véu de chuva fina desceu sobre ela em forma de manto. Abrigada pela chuva e no escorrer sinuoso de suas águas, ela sentiu-se inundada pela densa sensação de despojamento e libertação.
Mas, os sinos da Igreja  anunciaram a missa, quebrando a epifania daquele  instante.
A menina evanesceu ao som dos sinos. A jovem senhora abriu os olhos e caminhou até o carro.

O motorista, ao abri a porta, exclamou:
_ Minha Nossa Senhora! Eu acenei, gritei pedindo que a senhora se abrigasse.  Virgem Maria! Parecia até que senhora tava encantada. Entre logo no carro, a senhora pode pegar um resfriado.

A jovem senhora entrou no carro e quase sussurrando disse:
_Fique tranqüilo Senhor. Eu não me sentia desabrigada

O motorista espantado disse:
_Como assim, a senhora está toda molhada.

Ela decretou  o silêncio dizendo:
– A  chuva não me molha. A chuva me beija.

Wanda Monteiro

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