Resenha sobre o novo livro de Wanda Monteiro (De Airton Souza)

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DE ÁGUA E TEMPO VAMOS NOS CONSOLANDO

Airton Souza

Desde o título, AQUATEMPO, este livro aponta para a sina das águas. Um despertar para/na fluidez desse e outros tempos, de uma voz, onde eu lírico está banhada pela transitoriedade do que é o fio tênue de uma Ariadne que cerzi o tempo nas águas. Aqui, Wanda Monteiro, traça a poeticidade de um corpo e seus sentidos pelo que a linguagem, esvaindo-se, afoga e afaga, nas manhãs de terra e leito.

ainda trazes nos olhos
o luzir da água que te acordou
lembras ?

Ainda que na sutileza poética esses versos possam estar imbricados em um jogo que convergem naus e peraus para a unicidade poética deste livro, é de indagações e inverdades que a água nos acorda. Acordar em um tempo, lembras?
AQUATEMPO, essa justaposição terminologia que grita água e tempo é um livro úmido a correr em nossos olhos. Se bem que os olhos serão o monte para muitos poemas. Isso nos lembrará o conselho do poeta Manoel de Barros: é preciso transver o mundo. Aqui a poeta nos faz transver o mundo por uma óptica a margear cada cais que compõe os dias e as estações. Nos versos abaixo é possível fi(n)car os pés

tens os pés fincados no outono
as águas
sempre
chegam para fechar o verão
mas a turva embriaguez
de uma quase-primavera
não te deixa florir
De memórias em memórias as margens e os leitos soçobram nas retinas de uma eterna saudade. Tudo é um rito banhado pela imagem de um terno partir como quem deverá promoter a chegada:
tua saudade é um cais
um sempre de partidas
ancoradouro de adeuses
e de promessas de chegadas

Toda essa carga poética e outras mais de AQUATEMPO ultrapassam o prelúdio de uma única beleza impune, porque estamos perante um céu de asas, cantos e voos cumprindo seus ritos de passagem. Toda essa abordagem poética de AQUATEMPO nos convoca a uma séria de perguntas, todas sem respostas, no justo sentimento dos mitos, dos traslados as lendas e o devir do rio e do riTo.
Wanda Monteiro parece atravessar com um T o rio da linguagem, indo direto ao subterrâneo do verbo, para invocar narciso na imagem de alguns versos latejando na pele quase sarjada do ser.
olha para o rio
abre tuas asas

o rio dá ao pássaro
mais que a sua imagem
no espelho das águas.

A imagem e o voo com céus de asas de AQUATEMPO são de nossas histórias naufragadas, no vocativo do despertar para as vidas e as intermitências do sono e do ato de acordar. Reescriturar o que deságua no tempo a encontrar a estrada que ele cava para aprender com ele mesmo, o tempo, a exatidão de morrer renascendo. Quantas vozes cabem neste livro? Quantos gestos navegam para as paragens de fluir o corpo, a angústia, a solidão, o plantar e colher das derradeiras estações?
Deixo essa imagem para o além do fim…
são os acasos que se vão cumprindo
e cessando nesse teu devir
o que te acontece
sem que consintas
são janelas que se abrem
e se fecham
na arquitetura do tempo
o mesmo tempo flui com teu rio

Marabá, outubro desse e outros tempos, entre os silêncios do rio Tocantins e os murmúrios do rio Itacaiunas.
poeta, professor, autor de 17 livros de poemas e atual presidente da Associação dos Escritores do Sul e Sudeste do Pará.

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