A TRAMA INVISÍVEL

Segunda-feira, ah… Entra pelas narinas o cheiro da manhã, as marcas do campo urbano, fuligem, monóxido de carbono e pólvora. Claro, a selva de desodorantes dentro dos ônibus e, sim, o inigualável cheiro da pólvora dos cartuchos de fuzil utilizados na noite anterior. A vida na cidade é incomparável.

Valer-se da segunda-feira para observar o Rio é algo peculiar. Já cedinho subir pela Avenida Rio Branco. Vá pelas cinco da manhã, pois nos próximos três quartos de hora tudo mudará tão drasticamente que você terá vontade de correr. Mas antes que uma multidão tome a calçada você chega perto de uma banca e lê as notícias frescas sendo estiradas pelos jornaleiros. Quem sabe passa pelo Largo de São Francisco e se deixa levar pelo cheiro da gordura de centenas de hambúrgueres que começam a ser preparados, para que na hora do almoço tenham atingido aquele ponto ressecado como uma sandália Havaiana que ficou no sol, para então serem servidos a todo tipo de gente faminta. Merece o refrigerante Pakera ou Tobi para descer. Azia estranha é certa e não faz distinção de classe.

Depois, ir caminhando pela Praça XV e deslumbrar-se com a multidão despejada de uma só vez pelas barcas. Experimente ficar parado. Todos caminham de uma maneira diferente, mas ninguém nota você parado na calçada. Por exemplo, ao lado do sinal de trânsito em frente à Assembléia (pode ser a rua homônima também, que é pertinho) observando, como que furtivo nas próprias roupas, os tornozelos das mulheres que passam. “Ah… eu amo a mulher que passa”. Obrigado Vinícius. Mas que bom se você pudesse beber comigo uma branquinha para distrair a garganta enquanto os olhos se ocupam dos tornozelos da mulher que passa. As curvas, as pernas torneadas e o calcanhar pressionado pelo salto. Que vontade de morder. Ai, se me adivinhassem o sorriso escondido. Que diriam elas caso se soubessem admiradas? Uma orquídea ou um beija-flor, tatuados, colorindo a panturrilha, quase passam despercebidos. Vamos morder os calcanhares da mulher que passa porque naquela saia vai meu coração despedaçado do final de semana.

De tarde, ir à Saens Peña, olhar para o céu. Sempre chove primeiro na floresta e as nuvens sempre querendo ficar mais, seguram-se no cume das serras. Cheiro de pipoca doce ou salgada traz também a saudade do Cine América. Bando de pulhas, vocês sabem, deixaram o cinema acabar, bando de carniceiros do pós-vida, isso sim. Odeio essa cidade enfeiada pelos assassinos do Cine América.

Eu vou voltar para casa. Quase me esqueço dos tornozelos da mulher que passa. A cobradora do ônibus berra comigo. Passo rápido e procuro onde me sentar. Um passageiro chama a atenção em voz alta e eu atento para a polícia distribuindo porrada e colocando gente na traseira do camburão, quando passamos pela Leopoldina. Cena igualmente carioca. Tento relaxar no banco e penso que a cidade, na verdade, é um conjunto de cenas que se repetem, aparentemente sem propósito, mas encadeadas. A cidade é uma trama invisível de pessoas. O motorista do ônibus acelera.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s