GAIOLA

Noite, Rio, subúrbio. O bar no meio do conjunto habitacional é característico. Um terreno aberto, em que alguém colocou um trailer para vender pão, que depois passou a vender cerveja e com os anos cimentou-se o terreno em volta para colocarem umas mesinhas, até que local já estava todo em alvenaria, com banheiros, sistema de som, televisão, gradeado contra furtos – outra gaiola de convivência urbana. Os anos passam e de repente ninguém se dá conta do crescimento desse negócio independente; é como se eles sempre estivessem ali e agora são parte integrante da diversão do final de semana dos trabalhadores que preferem estender para uma cerveja quando estão mais perto de suas casas e não próximos do local em que trabalham.
Esta gaiola, ou ilha urbana de convívio está lotada. Não há mais cadeiras e os que ainda chegam consomem em pé, segurando o copo em uma das mãos e a garrafa em outra. A possibilidade de beber com preços mais moderados que nos centros comerciais, aliada à proximidade do lar, torna o ponto irresistível – parada certa para todos que, apenas ali sentem o salário esticar mais um pouco na possibilidade de diversão. A televisão gigantesca, pendurada em um dos lados do recinto, ou ao fundo, dependendo do ponto de referência, está sem som, apenas as imagens do campeão de audiência da noite. O violeiro, também residente do conjunto, anima a noite com sucessos populares, mas com uma distinção: este conhece músicas antigas da rádio, o que faz com que se conecte bem com o público de meia idade.
Todos já estão levemente embriagados – alguns muito – e falam alto, ou cantam mais alto que o violeiro. Os freqüentadores se dividem pelo gênero. Há inclusive uma territorialidade não declarada, uma demarcação invisível, quase sempre clara e respeitada. Os homens ficam na parte mais próxima ao balcão, repetindo placares, contando vantagens, repetindo-se em jurubebas, quinados, pingas, traçados e sempre sozinhos. Um orgulho de aço, que via de regra é a capa de uma vida de aposentado que não sabe o que fazer com o tempo livre. Quem sabe as histórias que guardam? Muitos, os mais velhos sentados em mesas, olham para o vazio. Outros filmam tudo com o olhar de diabético para a vitrine de doces da padaria. Saudade, a luxúria do prazer proibido de sentir-se vivo, a sensação de impotência generalizada, pesando nos ombros caídos e apoiados na mesa. Pássaros de asas podadas, longe do ninho das suas cidades de nascença, que vez ou outra, encontram na aposta do futebol ou do bicho alguma emoção ou gargalhada momentânea.
As mulheres se espalham por entre o espaço entre as mesas. Falam muito alto e bebem com a alegria de uma mesa de família em algum feriado prolongado. Elas são fartas nos seus momentos. Há a clara sensação que é necessário sorver a vida naquele instante. Ele não é o último, mas é o possível, é o minuto irrepreensível. As casadas e as desacompanhadas se misturam em parcimônia e experiência. Irmandade não declarada, dançante barulhenta. Dançam entre si, dançam consigo mesmas, enlaçam o ambiente. Expurgo sincero da rotina, do sofrimento, em um momento superficial, intenso e dançante. Se fosse uma tenda, haveria uma semelhança com um harém estilizado, cinematográfico e principalmente sem nenhum marajá. Todas bacantes. Em certos momentos há um espaço espremido entre as mesas que se elege como pista de dança. Elas perfilam em movimentos lentos diante microfone do violeiro, sem preocupação de coordenarem-se com a música. Elas são a única força de vitalidade do recinto. Não tem vergonha de nada – mas por que, diabos, haveriam de se envergonhar? Elas são vigor e experiência, e neste momento em que os machos se solidarizam em sua alegria cansada, em seu clube dos obesos, os epilogados, elas exclamam vitalidade de quem se orgulha de cada marca da vida. Catarse e expurgo. Elas expiam, elas explodem.
O violeiro canta: “Alegria é você menina / todos querem te levar”. Ele canta para elas, que a vida conferiu duramente a sabedoria de não precisarem se conter por nada. O grande rol de insuspeitos letárgicos naufragam em suas catuabas por qualquer canção de dor de cotovelo; amar é crime que precisa ser afogado. Elas são o sal do sol. Magnéticas, orbitam com gravidade própria e nada pode com elas. Tem ginga para oferecer umas às outras, aos passantes, ao violeiro, ao lugar e a elas mesmas. Aos mitos verdadeiros cabe exsudar sua própria redenção.
As vozes, os gestos, a música ficam mais altos com as horas. Há um cheiro de salaminho, fritura e urina que invade permissivamente as narinas sempre que o vento passa. São todos romanos em uma festa sem deuses; todos os deuses foram depostos. Uma mulher senta-se no colo de um homem, ele coloca uma rodela de salame em sua boca – não há uvas para compor a cena. Um outro homem atravessa as mesas de braços abertos e dança com uma desconhecida. O violeiro canta: “A noite vai ser boa / ah, vai rolar, vai rolar”.
O milagre do subúrbio é a catarse. Ninguém fica de fora, todos tem saudade, todos cantarolam, todos estão suados, cansados de serem explorados por oito horas, que se tornam dez, que se tornam doze, em empregos mesquinhos, ainda assim renascem catarticamente em uma ontologia única e a cerveja lavando essa alma cansada de sangrar por sonhos perdidos. O violeiro canta: “No meio da rua, no meio da chuva / a girar, que maravilha”.
Zazueira, porra.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s