[descubro a mão que entre o silêncio dos dedos escreve…]

descubro a mão que entre o silêncio dos dedos escreve a demência da tremenda melancolia até cravar as veias encharcadas de sangue aos ossos do braço em incêndio que desencadeia o ofício violento da escrita.

se a escrevo com as mãos a entrarem e a saírem rebentadas de ideias ou pensamentos atados à morte vivida da paixão atravessando a boca toda rasgada de palavras a palavras é porque:
– carrego. arrasto. talho. afundo algumas forças entrançadas pela terra adentro desembocando nos côncavos buracos negros por que lá dentro nas fundações quânticas tudo se desfaz na pura turbulência do esmagamento electromagnético das coisas dos fundamentos por isso os aros de luzes cortados após a matéria negra como pólos polidos de energia positiva e negativa
estrangulam-se de um para o outro lado atraídas pelas forças gravitacionais imperando a regulação até à trajectória espacial.

então devem estilhaçar verso a verso torcendo-os
pelo ar abafado a bafo enquanto aromas ou sabores sumptuosos
das mãos respiráveis lavrando todo o silêncio permanente. expugnável.

é um silêncio escrito perante as noites e dias alagados
por filões de água e sol e chuvas e neve
escurecendo as memórias sem fracturas corporais
ou gramaticais.
noites ou dias a levantarem a panorâmica da outra mão quieta a olhar a janela flutuando para as paisagens ceifadas
pelas golfadas de vozes altas ou baixas.

e porra não há palavras suficientemente capazes de descobrirem
as trevas ocultas dalguma que seja deveras:
– a poesia compacta. correcta. certa. improvável.
existe qualquer coisa arterial, artesanal, anatómico. sobrenatural.
tenho algumas dúvidas.
e os colapsos instantâneos, furibundos e súbitos?

coitada da cabeça suspensa nos dedos por entre as mãos
a pulsarem sobre as folhas brancas de papel
com buracos por preencher de tabacos, fósforos para os acender. mel adocicando as bocas doentes. especiarias a ofertar aromas vindos dos confins do mundo. feno abanado pelos ventos tórridos dos verões e invernos rígidos. ervas desmaiadas. insectos confusamente aos círculos do cio da comida. lixo a encher as cidades agora artificiais. cinzas depois dos fogos apagados. ramos de árvores quebrando-se noutras árvores, árvores que gemem com a passagem das horas. ramos despidos de folhas arremessadas contra as terras macias. anilhas em torno dos parafusos. brocas giratórias girando peça por peça. pregos pregados nas paredes através da carne afundada no corpo humano. placentas e cordões umbilicais comidos, engolidos ou atirados ao abandono. roupas e mobílias a rodopiarem loucamente dentro das casas achatadas. tecnologias de ponta administradas para matarem tudo o que se mexe na sua própria condição dalguma existência sequer. automóveis parados às bermas cuspidos pelo asfalto escorregadio, do outro plano paisagístico sucateiras submersas de sucata, depois surge na espessura da curva uma camioneta a elevada velocidade sem parar, carregadíssima de humanóides prontos a substituírem os actos e reflexos das mulheres e dos homens na concavidade metálica da nave de transporte, ultrapassa a curva, explodem-lhe toda a linha de pneus do lado esquerdo e a camioneta embate fortemente espetando-se nas vidraças de um prédio em labaredas aos trambolhões e tudo rebenta. copos solitários a definharem nas ruas esvaziadas aonde se definham fotografias retratadas pelas mãos de algum fotógrafo qualquer. plásticos a sobreviverem diversas gerações. gira discos a girar os ritmos ou baladas mais alucinantes misturadas com musique électronique ou de rock. talheres plenos. panos cosidos à mão [esquerda ou direita ou ambas?]. cortinados feitos à medida do estilo da moda ou da tendência. anéis para pedras preciosas a gemerem nas vitrinas dos ourives. guardanapos carimbados com os lábios pobres ou ricos tanto faz. pratos fartos outros sem a mais pálida sombra da substância ou matéria. plantações por todo o lado a arderem de medo. vidros de lume. dentes pelas dentaduras afogadas nos copos da noite. ferramentas industriais e caseiras expostas para se usarem. cimento. máquinas. motores a ferverem. instrumentos musicais a chocalharem dentro das carolas sem eira ou beira. pedras por dentro de outras pedras a chocarem entre si. armes à feu ferindo pessoas feridas para morrerem dependentes doutros, uma morte vagarosa, invisível ou os tecidos de seda ou de linho talhados a ouro alquímicos amargurados pelo caminho do tempo envelhecido ou eterno? quem quer saber disto?

mesmo um nó de letras a descobrirem o epicentro das constelações completas, todos os terrenos invasores doutros sistemas solares por esse universo fora:
– e o que é o universo?
– do que me vale descobrir o estremecimento da escrita poética dando uma valente marretada na cabeça e abri-la de repente com os punhos e os dedos grandes a afastarem o lastro do rasgo a meio da cabeça já amplamente esgaçada como um animal degolado?

se descobrir a fórmula valerá a pena viver no prolongamento do sofrimento pragmático da poesia?

talvez com um punhal na mão descubra as linhas, os fragmentos
da morte desta se porventura agarrar-me por sob o corpo turvo aos fulcros do violento ofício da escrita de espelho em pedaços de vidro repartidos ocupados pelas partículas e moléculas aos átomos seguros e como não há uma leveza lúcida universal
o silêncio é a mão que escreve tudo quanto é demente
porque tudo é demência e não existe lugar para a lucidez alguma.
descubro depressa também os outros dedos à espera.

por f.m. obra:«la mort de l’amour»@2017/2018

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