[inebriar o corte torto…]

inebriar o corte torto em forma escrita
num adeus à última escrita que quebra as rajadas de lâminas ausentes
e é isto que sorvo formidável por dentro
onde por fora só existe uma tinta a pingar que ofegue
os embates das mãos

tudo continua no exterior por partir
percebi dos dias e anoiteceres deformados numa lua-de-mel faminta
enfraquecida

tantos lugares esmagados por belezas em sintonia
faço-os proibir apenas porque quero abraçá-los com tantas marés
e não desaparecerem sem escreverem o quanto somos dóceis

andava sob a ânsia violenta de rachar a tua sombra
contudo nunca me encontrei lá

os viajantes doidos viam-me por aí esperavam para lhes dizer
o que tinham a fazer e nisto cheguei durante o golpe da palavra
sorridente

continuo a expandir os véus das floridas veias
quero adquirir o toque da textura impura

sinto a terra a abarrotar-se a bater-se contra si mesma
a partir dessa luz dobradiça luz nua a enrodilhar-se
nos dedos napa colados à sua voz

descubro a confusão da força irónica quando o ar se abre
e se alarga ao tremor do movimento trazendo a áspera música
numa sonda à cabeça vazia

depois ando de folha branca em folha branca a estrangular tudo
o que escrevo para mim e daí desvio a sua atenção
beijo aquilo que é meu o resto que se foda

filipe marinheiro, in «noutros rostos», chiado editora 2014

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