TEATRINHO CARIOCA [título provisório]

 

Cena 1

Bar…

Ela demora pacas pra sair.

Ele:
Então, vamos? Você não acha que podemos nos pegar em um lugar mais próprio?

Ela:
Péra. Já vamos. Eu só vou ali cumprimentar umas pessoas

 

Cena 2

Motel…

Ela pira com a hora de sair, a hora dela chegar em casa, cheiro de bom ar deixado no quarto… E as cortinas!

Ela:
Ai, porra. Eu não sei, como vou voltar pra casa de madrugada? Mas que droga. Mas que lugar é esse? Olha, o cheiro desse quarto é horrível. Eu mesma uso um outro spray em casa, esse me dá dor de cabeça. Mas que cortinas vermelhas horríveis

Ele, calado, achando tudo um filme de Almodóvar acontecendo na sua frente. Agora, ela havia ficado horrível. Na verdade, as cortinas eram perfeitamente aceitáveis, feitas sob medida pra janela, sem manchas, talvez até novas.

Ele ficou com vontade de pedir um vale-fodinha pro motel e sair correndo daquela cena de filme…

 

Cena 3

Fornicação…

Em que ele desempenha seu papel por… 50 min. Uma hora-aula, pensou. Ela atua mal até para uma atriz de vídeos adultos. Rasgava-se em berros estridentes de prazer nada convincentes. Ele já começava a olhar para ela com certa desconfiança. Por vezes ela olhava fixo para ele e fazia uma linguinha fina de lado a lado pela boca. Ele precisou se segurar para não rir da cena. O que essa mulher pensa estar fazendo?

Ela dorme pelas quatro horas restantes

 

Ato 2

Cena única.

Monologo mental.

Desempenhado por horas olhando o teto do motel. Ele revê toda a sua vida.

Pensa no fim, na eficácia da psicanálise, na reprodução dos pandas na China, camada de ozônio, na chuva lá fora, no dilúvio bíblico que poderia varrer o lugar e permitiria que  morresse feliz pois lavaria também essas memórias…

Ela ressona. Ela estava cansada. Ele sabe identificar pelo tipo de respiração.

 

Ato 3

Cena única.

Ela quer esperar os ônibus voltarem a circular. Ele quer se atirar no mar e voltar à nado pra África. Que pessoa sabe que vai para um motel e não separa grana pro táxi depois? Ah sim, claro. Uma indireta para que ele pagasse o táxi para ela. Ele paga. Ela diz que quer mais, muito mais e boceja antes de entrar no táxi.

A chuva parou. Ele poderia pegar um táxi para retornar. Prefere ficar sentindo a brisa gelada do inverno no rosto. Ouve o mar bater suave. Não há ninguém na rua e o sol ainda não nasceu. Vai demorar, está nublado. Que alívio, o silêncio, a brisa realmente gélida.

Ele retorna para o seu apartamento, come todos os doces que estavam esquecidos pelos quartos e pela despensa. Pensa que se estivesse com um sorvete agora, este seria o final de um episódio ruim de alguma série enlatada norte-americana.

Misantropia parece fazer mais sentido que nunca, agora.

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