JUKEBOX AMBULANTE

Parte de mim sempre pensa que um texto pode começar de uma música. Tem sempre uma música tocando na minha cabeça. Agora, por exemplo, toca All Along The Watchtower. Nossa, tudo parece vibrar em volta conforme a música. O mundo torna-se um clipe. A vantagem de ter uma jukebox na cabeça é que posso mixar as vozes do Hendrix e do Dylan em uma versão simplesmente perfeita, com bends incendiários e muitas garotas se derretendo pelo Hendrix que toca guitarra, enquanto outras contam suas mazelas para o Dylan.
Tem que haver uma saída desta droga. Essa frase repercute como um gongo, um sino no campanário da minha cabeça enquanto caminho pela calçada aparentemente sem rumo. Eu disse aparentemente? Completamente. Eu me lembro que está tudo um verdadeiro porre e que ninguém vai ouvir nada do que preciso dizer esta noite. Esta noite perdida. Talvez o problema seja que ninguém pode perder-se por completo dentro de si mesmo. Isso sem ser atropelado ao atravessar a rua. Eu costumo me lembrar do começo dos anos oitenta em que estava mergulhado de influências dos anos setenta e queria que o mundo explodisse em tintas para que a vida se tornasse tão surreal e absurda quantos os quadrinhos da revista Heavy Metal.
Um cretino no volante passa e me mostra o dedo. Seria ótimo ter algum grau de telecinese para poder fazer o volante do carro dele travar, ou ser como a personagem de Stephen King, capaz de fazer o mundo em sua volta lamber em chamas. Acho a nostalgia dos anos oitenta coisa do século passado, mas pelo menos eu resolvia os problemas imediatos da vida – ou dessa caminhada noturna – em um golpe mental. Exorcizava tudo em chamas de perdição ou imaginava um assassino serial mongoloide, monossilábico e fanho que retalharia de forma democrática, com cotas de gênero, credo e raça, tudo que caminhasse pela sua frente. Inclusive o babaca do carro. Inclusive a garota que deve estar no banco do carona. Inclusive os amigos dele sentados no banco de trás e que estão rindo. Eu passaria pelos pedaços espalhados em volta do carro em chamas e com as rodas para o ar e sorriria. Primeiro porque poderia chutar e cuspir nos pedaços e depois porque continuaria pelo meio da rua, tranquilamente, o dono do armagedon da sessão da meia-noite.
Eu me lembro que saía sorrindo depois que imaginava essa cena toda. Resolvia tudo temporariamente – para sempre – pelo menos até a caminhada terminar. Matar era mais fácil no imaginário daquela época. Você não tem a sensação de que sendo paciente com todos os que gritam e te ofendem na rua tira de você o direito fundamental de vingança mental, carniceira e mutiladora? Pois até isso os motivadores de bom humor arrancaram de nós. O mundo todo arrumadinho com paredes em tom pastel e pessoas fingindo bom dia enquanto cometem pequenas usuras morais que nem mais secretas precisam ser.

There are many here among us / Who feel that life is but a joke / But you and I we’ve been through that / And this is not our fate / So let us not talk falsely now / The hour’s getting late.

Isso. Isso mesmo, tudo mais simples, como em qualquer uma das pauleiras dos Ramones. Porque está tudo aí para ser vivido, devorado, e todo esse mundo que não tomamos não vai ficar para os babacas motorizados que se resolvem mostrando o dedo e se escondem na inconformidade dos programas de auditório dominicais.
É verdade que tudo isso já foi dito e repetido, não. Não foi porra nenhuma, que a jukebox não repete nada. Saudável é gritar para a conformidade que na minha cabeça, toca o que eu quiser enquanto todos se afogam no seu mar de apatia.
Sorrimos, é segunda-feira.

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