Poema (2) de Wanda Monteiro

aquatempo

Imagem: Pinterest.com

 

aquatempo

I

 

teus olhos miram invisível rio

nele

palavras que nunca disseste

nadam como peixes cegos

nadam famintas

morrendo à míngua

de tua coragem de dizê-las

no leito

um Eu nunca dito

naufraga

reverberando seus assombros

e soçobros

 

 

II

 

teus olhos

minguados

padecem do estio dessa tarde

o sol bebe

gota à gota

teu rio

quando a noite chegar

deita-te no chão de tua noite

colhe a chuva de teu sereno

quem sabe

tu possas chorar sobre tua madrugada

a carne orvalhada

dói menos

dói menos

menos

 

III

silenciosa
a memória corre
lambe as margens de teus olhos

que choram água

e sal

no rio de teus olhos
um leito seca de saudade

 

IV

turva água a tua
que de teus olhos
escorre nua
molha a pedra
face tua
abre-lhe fenda
funda
escura
fina janela para teu subterrâneo cais
abismo de teus Ais

 

V

no ventre de tua rosa tardia

nasce um tempo

de espera    solidão    silêncio

um tempo de plantar

no pouco de tua terra

uma semente de rio

espera pelo rio nascer

ainda que nessa espera

um frio minuano atravesse-Te

tomando-Te o corpo na angústia

que tu possas não germinar

nem crescer

nem florescer

no canto

de uma derradeira estação.

 

Wanda Monteiro

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