O visgo das coisas (Poema de Expedito Ferraz Jr.)

teia

IMagem: Pinterest.com

 

O VISGO DAS COISAS

 

tempo em que, pra ter ensejo,

o ser das coisas carecia

de se valer d´alma dos bichos

ou de pessoa humana,

modo de sedizer

 

máquina-de-escrever, por exemplo:

pra quê? pra quem?

mas quando deu fé

ela sorrindo tanto dente,

muito que brancos,

foi ficando ali que ficou sendo

máquina-de-sorrir-ainda-que-todavia

 

guarda-chuva também, resignado,

em surdo haver de ser ave noturna,

recolhido em si mofino desalado

sem uso sem asa sem voo sem chuva sem chão

dormindo pendente no esquecido

de nunca ter sido morcego

antes a flor enlutada o agourento corvo

e nunca bengala e não sequer seu guia

 

dos bichos alados, porém,

o janelão era o demais vivente,

suas venezianas costelas azuis

assoviando sempre e sempre

e o grande par de asas

que se rebelava alguma vez

(mas só quando o vento suscitava, em si bemol)

como um gesto da mão responde em sestro

ao zoom da escuridão de um pensamento

e sofrendo e sofrendo a deslembrança

de um talvez antigo voo

 

tempo em que, por ser espelho,

o visgo das coisas padecia

mísero de luz, que é sem o que

sequer as réstias das orquídeas crescem

nem as mandalas das aranhas acontecem.

 

Expedito Ferraz Jr.

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