SOBRE CADA POSTE UM POUCO DA LUZ QUE SE PERDEU

Everything under the Sun is absurd.

eu, que me desgasto nesta cidade, sou esquina, sou alameda, sou cruzamento, sou vento que passa na madrugada, o sereno nas copas das árvores e nas asas do morcego. eu não durmo, sou tudo que é surdo e mudo de rumo nos meandros da sombra e do desespero, meus pés frios no asfalto pisam o nome dessa cidade, desse bairro, desse baixo local de absurdos. eu absurdo sussurro segredos que não sei, esqueci, ou simplesmente dei a outro estendido embaixo do viaduto.

aquilo (a tinta), aquilo (papel), aquilo (mortevida), aquilo (peixe), aquilo (criação), aquilo (tempo), aquilo (vento), tudo isto aquilo que vaza pelo canto dos olhos, que escorre da ponta dos dedos, por entre as mãos, pele e carne e ossos, tudo. sem palavras novas nesse meio. estou vivo, mas não sinto o ar que me atravessa como a todas as coisas. aquilo que atravessa aquilo tudo mais que tem todos os nome e nome nenhum tem.

pertence a um armário que guarda todas as máscaras, um pote, uma conserva de relógio e orbe e cidade. aberta, que rouba incessante todo o tempo que homens em mulheres criam para si. sempre sol ou sempre noite o peito desfeito em pó sem carne nas costelas da criação. apenas diga o nome de todas as coisas em sua volta em um círculo infindo no cérebro e será desfeita a acidez da conserva. você retomaria seu rosto, sua carne, seu tempo.

homem nenhum, mulher nenhuma, estas costelas desertas, tanta espera da face oculta do desejo que aquilo não tem nome nenhum. nenhum nome maior que a falta que há de dançar no platô do esterno, tão liso. não é humana a sombra que se deita ao lado do corpo inerte da palavra que não tem nome. silvo-sombra semelhante a um fantasma, um punhal, um porão, uma galeria sem água. sem anjos nos postes cravados nas veias da cidade, cravada lembrança em cada lençol.

assobio-sombra, coisa parte luz, parte gelo escuro, sem sexo, dentro exposto, fora sem rosto, abismos de não-ser e ainda sem nome – apenas falta. um motor ronca vários andares abaixo e abismos ao lado de braços abertos e inversos a tudo mais. sobre cada poste um pouco da luz que se perdeu de seus olhos.

a coisa-sombra abriga em si uma geleira arando palavra inteira. falta. cessa lenta a luz pálida que te alimenta, essa sombra avessa sem começo, ou fim, ou verso. intransigente, quebra ossos e assim prende. cintila em toda pele aquilo (desejo) daquilo (palavra) – nua, muda, mas canto, muito mais.

falta em mim qualquer coisa sua.

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