Poema de Al Berto

sol

                                         Imagem: Pinterest.com (Nicolas de Estael)

 

o sol ensina o único caminho

a voz da memória irrompe lodosa

ainda não partimos e já tudo esquecemos

caminhamos envoltos num alvéolo de ouro fosforescente

os corpos diluem-se na delicada pele das pedras

 

falam os rios deste regresso e pelas margens ressoam passos

os poços onde nos debruçámos aproximam-se perigosamente

da ausência e da sede procurámos os rostos na água

conseguimos nao esquecer a fome que nos isolou

de oásis em oásis

 

hoje

é o sangue branco das cobras que perpetua o lugar

o peso de súbitas cassiopeias nos olhos

quando o veludo da noite vem roer a pouco e pouco a planície

 

caminhamos ainda

sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos

a fuga só é possível para dentro dos fragmentados corpos

e um dia… quem sabe?

chegaremos

 

Al Berto (In: Tentativas para um regresso à terra, 1980)

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