O poema (Herberto Helder)

cravo

Imagem: Pinterest.com

I

Um poema cresce inseguramente

na confusão da carne.

Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,

talvez como sangue

ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência

ou os bagos de uva de onde nascem

as raízes minúsculas do sol.

Fora, os corpos genuínos e inalteráveis

do nosso amor,

rios, a grande paz exterior das coisas,

folhas dormindo o silencio

a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.

insustentável, único,

invade as casas deitadas nas noites

e as luzes e as trevas em volta da mesa

e a força sustida das casas

e a redonda e livre harmonia do mundo.

Em baixo o instrumento perplexo ignora

a espinha do mistério

– E o poema faz-se contra a carne e o tempo.

 

herberto helder

poesia toda

 

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