O HOMEM DA RUA 23

Aquele gosto de noite na boca. A escuridão molha minha pele. Eu vejo os carros, eles passam. Meus olhos atravessam a janela, quase vitrine, vidro. Não há tensão nenhuma em passarem, sempre passam. Não há novidade nenhuma nas pessoas, sempre passam na calçada. O que as move? Em que tempo ficam? Voltariam na clara manhã? Por que eu me perco em retóricas inúteis?
A vontade de fluir nas veias amargas desta cidade. Saio em um impulso. Cada passo desconfiado, narinas inundadas de absurdos odores. Os sentidos confusos, a alma em um blecaute que me impede de ver além de vultos, sombras que se movem em sombras de muros. Caminho incerto, uma trajetória errônea.
Não entro logo em qualquer lugar. Escolho, acalmo, pressinto. Sou um predador indeciso, uma sobra da extinção. A busca, a caça, a senda. A noite obscura, obsidiana na vista. As horas e os joelhos contam o tempo. Esta é a busca do homem da Rua 23. Este sou eu.
Ficou tarde. Passou muito tempo desde que comecei a andar. A noite pintou o chão de preto, as esquinas de preto. Tenho as sombras embebidas na pele como um mineiro, um carvoeiro, ou apenas um vulto indefinido em uma noite idem. Não sei dizer a diferença entre um indivíduo e um vulto.
Uma luz no canto do olho surge, algo muda em mim, um clique e basta de andar a esmo. Entro, está claro. Uma livraria, um café, poucas pessoas. Um desses estabelecimentos dessa cidade que funciona vinte e quatro horas, uma rodoviária de insones. Passo completamente despercebido, sou outra ave, outro réptil, outra quimera na selva de impressos. Há estantes por todos os lados e algumas pessoas realmente leem os volumes que retiram ao alcance dos braços. Romances, novelas, crônicas, enciclopédias, fotos, arte – gosto das fotos – design, cinema e teatro, viagens, portos – gosto das fotos – cidades, sonhos e poesia. A vegetação me confunde e as folhas letradas exalam o inconfundível desabrochar de variáveis vazias. Viagens interiores. Hoje não. Esta noite não.
Estou confuso. Pensamentos desordenados e íngremes. Minha cabeça é uma montanha russa de sentidos desconexos. Um tanto pornográfico, em volta há fotos de coxas, bicos de seios e mãos convulsas – o ópio gozoso. Sou um bicho preguiça, uma face da lascívia sem lençóis. O macchiato esfria sob meu nariz.
Até que ela entra.
Virei a página, abriu-se a porta, e o destino das personagens desliza pelas palavras diante de seus olhos. Não era um livro.
Até que ela entra.
Ela entrou pela porta e veio caminhando. Reconhece o ambiente revirando a cabeça. Sussurra entre os lábios os nomes das seções demarcadas nas prateleiras, história, romance, poesia, sociologia. Não sei ler lábios, mas aprendo rápido. Café, tenho certeza que ela diz café para si. Segura um livro grande nas mãos e seus olhos mergulham pelas páginas. Tem dedos longos, unhas brancas, que sobressaem na camisa preta. Sentou-se numa mesinha, como a que eu estava. Cruzou as pernas. A pele branca, roupa preta, unhas brancas, isso eu já disse. Fitei por segundos cada dedo, buscando detalhes.
Deviam me prender por pensar assim. Eu acho que deveria ser preso por pensar assim. Ela deveria me prender por pensar assim.
Eu deveria prender você por pensar assim.
Hackers mentais são proibidos nesta parte da cidade, pare.
Nenhum de nós dois quer saber disso essa noite.
Eu deveria algemar você por invadir meus pensamentos assim.
Eu gostaria, seu cretino.
Saímos depois da bebida. Um logo após o outro. Diálogos não são necessários, hackers mentais podem se conectar ou se bloquear até inconscientemente, em caso de perigo. Não precisamos disso esta noite.

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