SONHOS DE PADARIA

Manhã de domingo e os primeiros sons da rua chegam entre as cortinas. O mundo acorda, só que mais lentamente. Mesmo o sol, não apressa tanto as pessoas nessa cidade. Há os que vão para a praia, estes sim, são vozes apressadas tentando arrumar-se em um carro, sons de cadeiras metálicas, há crianças, mas logo partem. Um vento quente sopra pela janela e incomoda no rosto. Hora de levantar.
A rotina de escovar os dentes e tentar reconhecer no espelho quem é aquele que olha, cansado, de volta. Parece tão perplexo quanto entediado com a visão. Arrasta o corpo pra cozinha e a realidade cruel se revela, a geladeira vazia oferece luz e um refrescante ventinho que lhe toca os pés. Hora de se compor e ir pra selva urbana caçar o desjejum em uma padaria.
Chamou-lhe a atenção um comunicado aos condôminos. Estavam proibidos atos de conversa entre grupos, animais, fumo, crianças correndo, bicicletas, skates, assim como pessoas estranhas desacompanhadas. Contavam com a colaboração de todos no sentido da tolerância construir um melhor lugar para todos residirem em paz. O síndico era realmente um imbecil e só faltava decretar um toque de recolher. Pegou uma caneta vermelha que sempre trazia no bolso e escreveu no topo do papel: “A natureza humana é ser tolerante, desde que todos tenham a mesma opinião.” Acrescentou uma suástica ao lado do nome do síndico.
Chegou na calçada mais leve, certo de o pequeno ato iria gerar nada mais do que um ataque de raiva no fascista enrustido. A maioria dos vizinhos não se importava em ter sua liberdade tolhida e até declara o conteúdo das bolsas de compras “para que a segurança dos demais condôminos não seja comprometida por vândalos e outros arruaceiros que possam estar escondidos no prédio”. Colocou as mãos nos bolsos e seguiu. Agradeceu internamente essa singela oportunidade de ainda poder dar combate ao reizinho mandão. Seria essa a única forma de luta ainda possível nessa cidade?
Balcão da padaria, o ventilador espalha o ar quente democraticamente pelo ambiente. Apesar disso, todos bebiam uma média fumegante, vinda da antiga máquina que mantinha o café, o leite e a água sempre aquecidos. Em uma padaria, quase tudo tinha um apelido, consagrado pelo uso popular, a média, por exemplo, com partes quase iguais de café e leite, misturados na xícara. O pretinho, o pingado, os nomes às vezes mudavam de padaria para padaria. Disco voador, ou pão com ovo e a popular canoa, que é um pão francês cortado ao meio com manteiga nas metades. Os nomes mudam, mas as preferências raramente. Um pingado e duas canoas, nadando na manteiga.
Enquanto comia, andava pelas vitrines e via a criatividade do padeiro. A vitrine da padaria parecia a vitrine de uma joalheria com doces, tranças, croisants, brioches, e muito creme dourado em cima de pães de massa doce de diversos tamanhos. Sorriu diante das possibilidades, escolher era divino. Sorriu pensando no padeiro, nem todo herói usa capa afinal. Chamou a atenção uma travessa vazia, salpicada com açúcar de confeiteiro e canela. Percebeu o creme nas bordas e teve certeza de que ali havia antes o que ele procura. Seu doce predileto, o sonho, generosamente recheado com creme e coberto com uma fina camada branca de açúcar de confeiteiro misturado com canela. Buscou um atendente menos ocupado, para lhe dirigir a palavra:
– Por favor, vocês tinham sonhos aqui? Pode perguntar se o padeiro ainda vai fazer mais?
O atendente pegou a travessa vazia e acenando com cabeça, saiu em direção à cozinha.
No lado oposto do balcão, onde ficavam os bancos e as pessoas sentavam para beber seus cafés, chamou-lhe a atenção um homem que falava mais alto que os demais. Não havia como não ouvir o assunto, mesmo do outro lado e a uma certa distância. O homem se gabava de ser o mantenedor da paz, o zelador do bem do prédio em que morava, com ele não havia baderna, silêncio total depois das 22h ou multa na próxima conta. Obras eram sempre essenciais e com taxas extras o capital do prédio nunca se esgotava. Parou pra comentar que não havia nada mais digno do que mármore rosa para decorar e mesmo um prédio de segunda, como o que ele morava, merecia o melhor, mesmo que só ele apreciasse. Sem dúvida aquele era o síndico do prédio onde morava. Passou a prestar atenção no que o homem dizia e afinal ele contou que fez os porteiros revistarem as bolsas de compras dos moradores para se certificar que o prédio não era frequentado por baderneiros, como esses que se infiltravam em passeatas para depredar bens públicos, saquear e denegrir a imagem das forças da ordem. Foi duro, mas era a ação que tinha que ter sido feita para assegurar o bem geral dos condôminos, era uma obscenidade a ação dos vândalos.
Indignado, ele apontou o dedo para o homem e largou em bom tom para todos ouvirem:
– A maior obscenidade que já presenciei é a falta de liberdade!
Todos se calaram, os que ouviam fizeram um olhar de surpresa, como que esperando retaliação do síndico falador. O atendente retorna e se coloca diretamente no campo de visão, bloqueando o contato visual entre os dois debatedores.
– Acabou.
– Como?
– O sonho, senhor, o padeiro não vai fazer mais porque o açúcar acabou, há pouca canela e precisa usar o creme em outros pães para não estragar. Os sonhos devem sempre ser frescos para ele.
– Ah, sim, obrigado. Acabou.
Deu a volta e saiu. Parou na calçada, na frente da padaria e acendeu um cigarro. Tragou fundo disse para si, com ironia de um clown: “O sonho acabou, mas que droga.” Terminou o cigarro e caminhou convicto de volta ao prédio. Não tinha um plano, mas primeiro ia fumar o resto do maço na portaria, lendo um livro e depois faria uma lista de coisas que faria antes que houvesse um toque de recolher no prédio, datilografaria e colocaria em cada portaria.
– A droga do sonho acabou, mas eu estou começando.

Arte de Kaiena Ferreira. intagram.com/kai_dvioleta

Arte de Kaiena Ferreira. intagram.com/kai_dvioleta

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