Senhor Bom Poeta… (Alexandre Guarnieri)

Guarnieri

                                                                                       Foto: Alexandre Guarnieri

SENHOR BOM POETA…

às vezes escrevo religioso como um monge zen
professando no formato dos sermões
os mais absurdos sutras e koans (nonsense)
às intermináveis guerras no intervalo entre
sons e letras… quisera explodir tudo…

às vezes como um louco num discurso vão,
reverberando aos mais ébrios berros
“acaso é um sacerdócio inglório
esse hábito de tantos poemas bestas?”

o que significa a exigência retilínea
desse moto-contínuo gráfico e fonético?
o que encerra o mistério dessa tão
superestimada corrente sanguínea da língua?

quisera criar uma palavra linda límpida
um singelo neologismo único e rebelde
ao invés grafo rabiscos críveis
mas absolutamente descartáveis
as rimas sempre rentes ao chão
e às paredes desses bélicos cadernos…

quisera ensaiar a escrita mais clara
e apta e cristalina mas o que sobra
quase sempre é esse labirinto caótico
de verborragias cansativas um limbo
infinitamente exaustivo de milhares
de cilindros linguísticos
de caleidoscópicos trópicos
de relógios assíncronos, ilógicos,
em cada qual um horário próprio…

quisera ligar o “foda-se” não dar
a menor bola cagar e andar pra todo
e qualquer juízo de valor estético encontrar
no remanso de uma frase feita, de efeito,
a destreza de um poeta revolucionário!

é por isso que eu quero
que você vá pro caralho, senhor bom poeta!
(é você mesmo aí!)

que me observa do outro lado do espelho,
esgueirando-se, que me segue sorrateiro
nos reflexos cor de prata
quando eu cruzo as vidraças
me persegue nos relances
nos golpes de vista
nos vultos de mim mesmo…

vá pro caralho, senhor bom poeta!

você que se engasga na tristeza
e finge-se um palhaço alegre e leve
e cantarola piadinhas insidiosas
pra regatear migalhas de aprovação
nos bons e velhos salões de sempre

você que quase se afoga no próprio orgulho
mas certamente afunda no lago de fogo e enxofre
da auto-piedade até quase o último segundo
quando se agarra à corda trançada
lançada pela equipe de salvamento
ou se insurge no momento final
e sabota o resgate, e se afoga
enquanto finge ainda saber nadar
mas morre aos poucos,
atirando pérolas aos porcos,
mas sufoca aos poucos (seu louco!),
engasgado na própria angústia,
como um peixe lento e cansado de si mesmo
cansado da água como habitat já inadaptado ao sal
de sua própria lágrima envenenando rápido o aquário
de sua própria casa, dessa sua casca frágil,
sob o brilho vítreo dessa máscara…

vá pro caralho você, senhor bom poeta,
alice ou alex, que habita por trás do espelho,
que se esconde no país das maravilhas,
ou num inferno de pílulas coloridas,
e me imita sempre o bom mímico de si mesmo
ou de mim mesmo quando estou em mim,
irritado, rindo ou irado, nesse eterno jogo da imitação…

por isso que eu quero é que você
vá pro caralho, senhor bom poeta!

é você aí mesmo! não se faça de rogado, seu folgado!
arruma tuas malas e vaza! já anunciaram nas rádios:
seu voo (sua viagem sem volta) o aguarda…
e leva de uma vez, quem sabe pra algum planeta novo,
essa porra de “eu lírico” (seu fingido!),
agora parta, astronauta tupy…

pra bem longe daqui!

Alexandre Guarnieri

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