COMO TEM QUE SER

Fazia frio numa manhã como qualquer outra em que se possa acordar preguiçosamente com a certeza de que depois da mijada, há que se retornar para o quentinho da cama. Parecia que não mais se lembrava de como levantar. O corpo não obedecia e o sono o abraçava como a própria gravidade. O planeta agora se opunha ao movimento ingrato pra fora da cama. Coragem, contagem regressiva… ascender. Está de pé, resmungando baixinho, outro passo.

Calma, cálculo, caminho, cautela, calibre, cuidado… Terminou a pintura na porcelana e se aconchegou novamente na cama. Pronto, nada poderia lhe atingir agora. Não mais vulnerável, resta um sorriso de conforto. O cobertor como um abraço apertado. O sol percorre imperceptível a vida, desatando a manhã e estendendo a memória, como roupas no varal.

Ele não queria saber de memória. O passado estava feito. Se a brisa gelada desta manhã não apagasse, o tempo o faria. O melhor exercício é tentar não pensar em nada. Uma mente livre pode vagar burlescamente por toda a memória residual de uma noite e pinçar o melhor do fluxo intermitente de passado que assola a ressaca moderada que culmina em ondas pela manhã. Assim é como tem que ser. Caso houvesse um espelho perto da cabeceira perceberia seu sorriso tranquilo no rosto. Felicidade e desgraça são bem parecidas quando se tem em mente que ambas não têm hora de chegar. Acontece que uma está sempre atrasada e a outra nunca perde o almoço, mesmo no dia em que falta bife.

Havia chovido a noite toda. O barulho da chuva parecia vir do tornozelo dela. Na verdade, o efeito sonoro da correntinha no tornozelo dela. Artefato delicado, estilo indiano, que tilintava graciosamente. Os penduricalhos em forma de gotas eram pequenos instrumentos musicais. Porém, ela era muito mais. Ela inteira era musical. Apesar do vento gelado da chuva ela calçava uma leve sandália e toda hora levantava a saia, que tocava o chão molhado. Conversa não houve, porque essa formalidade demanda algo mais demorado do que a velocidade do desejo. Fluência é quando você descobre o atalho das palavras e chega direto nos olhos. E olha-se tão diretamente, tão profundamente que em átimos de suspiro, da surpresa ao reconhecimento, ao sorriso, às faces rubras, aos balbucios e da adolescência ainda que aos trinta anos, tudo se passa em nada mais que um átimo. Exatamente assim. Ele estava imerso nesse mergulho, sem sentir nada, sem perceber nada, sem perceber mais nada além dos olhos dela dentro dos seus.

Um caleidoscópio de nuances, cada tonalidade daqueles olhos atordoou suas palavras de tal forma que o mundo lhe pareceu mais simples. Perseguir, perder, permitir. Agora, tudo restava dentro de outra compreensão. Mergulhando na mulher mais linda que já havia visto, descobriu que dentro dela desaparecia sua imagem, estava perdido dele mesmo. Entretanto, como um dentro sem fora, o reflexo dela em seus olhos havia chegado tão fundo que sua alma poderia jamais deixar de ser criança de novo. Não teria adjetivos ou denominação. Seria o agora. Assim é como tem que ser. Foi, foram.

Da memória à cama, porém, uma longa estrada, separada agora por aquela manhã. Palavras de três sílabas começadas por “s” sempre têm eco na distância até o travesseiro. Caso houvesse um travesseiro e você esticasse o braço, perderia seu nome nele tantas vezes fossem para cada sete manhãs.

Cessa a memória. Acontece que não havia travesseiro, mas a branda respiração dela que como outra música parecia vibrar com a manhã dizendo: “sempre”. Isso mesmo. Acontece que nem toda história tem que ter final pesado e nem toda memória tem que ser sempre passado. Hoje, ninguém vai chegar naquela casa e nem naquele quarto. Ninguém vai abrir a porta e todo movimento além de abraços será ignorado. Não existe ninguém mais além daquela fronteira. Assim é como tem que ser. Foi, foram.

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