O TEMPO CUIDA DE ESCREVER

O tempo cuida de escrever:
usa grãos cinzentos de poeira,
aquilo sobre a mobília,
calado, em abandono,
não é corpo, antes
trono plano na estante
intocada – uma pausa.

O tempo deixa sedimentar
páginas e páginas de coisas inanimadas,
marcas e palavras inexistem.
Não-faladas, intocadas evidências
da presença gritante do
nada – perdura a pausa.

O tempo deixa sua marca rudimentar
nas pessoas inacabadas.
Por um lado um horizonte,
numa duna rala
repousa a vida e não diz nada,
do outro um olho aflito,
sem vontade – em pausa.

Calam-se os olhos e
– imensa, imensa –
cobre meus pensamentos,
aquilo que em mim imagina, ou deseja,
ou pensa você, ou pensa saber
você
apenas.

Quanto mais minha existência pensa,
mais densa sua presença,
além da mancha extensa da ausência.

O tempo cuida de escrever a vida, sempre que em mim você não é plena.

 

2016. Foto do autor

2016. Foto do autor

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