A PAIXÃO

Dobra o vento urrando no abismo. Há espuma e sal e o ar invade os corpos como uma maldição invisível. Uma procissão de olhos espelhando profundezas. Vagos, inertes, enormes orbes cheios de maré e vertigem, enormes orbes alagados de incompreensão. A carne rasgada em postas, perfeitas, inertes e brilhantes. As margens no costado, o mar sendo lavado. O momento é constante e as ondas são surdas. O tempo é um hiato na vida. Rubro mar ruivo, os olhos salgados no mar ruivo. Sangue escuro, alma clara, mil velas encharcadas brilhando no silêncio da carne aquática e amniótica, postas enfileiradas, eis a procissão professando o mar ruivo. Lado a lado mil orbes de fado encomendando cada vida neste barco. Enormes orbes de maré e vertigem, o solavanco da água, como um malho. A carne das costas tem marcas dispostas, olhos mareados e o mar ruivo de espesso passado. Sal no cálice rubro, ressaca e maresia borbulham flores de azia, o mar ruivo não é amparo, a morte invade o faro. O espelho vermelho das almas claras. Uma vez peixe, outra vez nada. A carne em postas, as marcas nas costas, o ruivo sangue ruivo, os olhos salgados do mar ruivo. Abismo, abismo, somos todos seus filhos.

Sangue, 2015. Foto do autor.

Sangue, 2015. Foto do autor.

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