[despi por ti…]

despi por ti
esta manhã num incêndio
os meus dedos debaixo das mãos caem levíssimos
nos lados interiores da minha cabeça alegre
as manhãs estrangulam as veias mortas doutras manhãs tremendas
doces manhãs
a caçar a minha cabeça e a cabeça salta estendida
no perfil doido doutra cabeça
à cabeça despida a trepar dedos mãos e sol a bailar
porque nada sabe ainda
manhãs de cabeça em cabeça adentro
cabeças a esgaçarem as mãos medonhas pelos dedos
devorando
unicamente os nervos longos
que saem à força dentro de todas as cabeças que se arrastam
no vazio lírico
da minha cabeça a tecer coisas sem razão maravilhas únicas
a cabeça ama as manhãs mais belas
as esplêndidas manhãs brilham nos incêndios desvairados
inclinam-se numa ventania – perseguem os pensamentos
a cabeça vai com a traição de si mesma
a cabeça trai e inaugura o sofrimento
e todo o fundo em dor
se levita na cabeça dentro da profunda cabeça estremecendo-a

e a cabeça louca tropeça e tropeça pura no doce orvalho fora
– golpeia-se: vive na beleza
e o orvalho desfia os malmequeres
com pálpebras fechadas que sobem dolorosamente sobre um céu
de petróleo macio
como a romper o ritmo das imagens das luzes das palavras
das fantasias novas e velhas
de outras cabeças de todas essas cabeças a perfurarem
o sangue sombrio
para outro novo sangue em amor e outras longas coisas
a arder ainda mais e mais
debaixo duma nuvem de chuva grossa e fina a rachar
todo esse petróleo
em filamentos íngremes potentes
o petróleo no meio da alegria em flecha escorre na garganta
cerrada
e disseram-me certo dia que perante as gotículas de chuva
a garganta encolhe-se
flutuando noutra garganta
e o petróleo num arco é incerto
durante as noites durante os dias mortos dias e noites moles
a baterem fortemente na ponta das cabeças paradas
a dançarem
depois batem no líquido do petróleo
a passar a correr a jorrar a levitar diante as estrelas
criadas pela imaginação fecunda
as estrelas escurecem inundam-me a cabeça já doida
e batem em flores solares
a cabeça sumptuosa renasce como fogo em criação
ou anunciação total alastrando o choque do sangue que se toca
e fere

a minha cabeça alaga-se sem violência se estala a cervical
ou doçura promiscua ou orgulhosa melancolia
em todos os corpos com olhos
ou com línguas furibundas mórbidas
afiadas pelos punhais pelas manhãs em embrião a enrolar-se
por dentro sem orvalho raso de aromas ágeis
e a cabeça roda para um outro lado
para o mesmo lado de trás
cabeça deitada para a frente cabeça à superfície desvairada
com odores límpidos esguios
com o alto estremecimento das flores em redor
e o coração
flutua a pulsar fora dela
por entre as brasas na base suspensa da minha e tua cabeça
– que pavor!
as gélidas manhãs deslizam nuas
na gravidade fértil desse lume as manhãs criam as mais altas
noites e manhãs
e noites a bailarem
nos recantos da carne da minha cabeça
deitam fumo
barulhos lá bem dentro – querem destruir todo o corpo
às vezes beijam-me a testa pequena
como quem ingere
o grito de pedras que vogam
e a força terrível das mãos sobre a cabeça a bater fortemente
na fímbria dos dedos expelem as mãos sacudidas
se as arrancam e dormem na sua finura:
uma verdadeira riqueza!
as mãos e dedos correm para atravessar com prudência
os olhos e ouvidos cuspindo na cabeça cores espessas e luminosas

porque querem espremer a cabeça que plana agora
em sangue fresco
sangue a derramar pingos musicais e todo este esforço
rasga sufocando nada mais nada menos
do que as minhas belas manhãs
manhãs meigas
estou vivo escrevo a palavra morte
e o todo da nossa vida desmorona lá dentro dessa morte
uma por uma
gritando com a vida a mover-se
como morte escancarada onde a corrente de ar é eterna respiração
e se respira para voltar
a inspirar cabeças anormais
a própria vida e morte vivem juntas
bem palpitantes bem sozinhas
sem ninguém para as iluminar
a minha cabeça em pesado andamento bate dura
nas pontadas das noites e manhãs e escorregam na cabeça
que mergulha no petróleo líquido
e ao saborear o incêndio desta maravilhosa manhã
a passear jamais descansarei
– dispo-me

«Noutros Rostos» por filipe marinheiro (poema e voz)

Créditos:

Foto: Filipe Silva
Música: Max Richter – November
Sonoplastia: R’Roots Studios (Henrique Portovedro)
Voz: Filipe Marinheiro
Obra:«Noutros Rostos»

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