COMO CONSTRUIR UMA CASA [tijolo de prosa]

Eu li certa vez que o escritor que aguarda por um momento de paz para escrever algo, levará a vida inteira sem nunca colocar nada no papel. É certo. O escritor tem seus fantasmas, a vida é um deles. Eu vivo em um redemoinho tão grande de coisas que fogem ao meu controle que ao mesmo tempo que crio a situação perfeita para criar, também invento outras mil para procrastinar. O telefone toca, a panela ferve, o mundo em crise, uma enxaqueca, mas que droga, isso nunca para. Não para. É uma tormenta. A vida é um furação, e furacões tem nome de mulher. Há algumas na minha vida. Eu diria que confio em uma inconstância, algo que não está lá, um desatino de sanidade, uma habilidade de, súbito, ser a tormenta.
Então, acontece.
Eu me debruço na escrita como um fugido, um refugiado, um desterrado do real, que abriu uma nova porta branca e migrou. Um acolhido das tintas que sem lugar muda-se e transmigra palavras. Construir uma casa, é proferi-la, seus tijolos com as curvas das letras: casa. Pronto, agora moro. O sussurro de um lugar basta para trazê-lo à vida. Se vou escrever um poema construo uma choupana ou estendo uma rede na página. Alugo um pequeno apartamento para brotar um conto. Romances, mais longos, mais tempo fora, são melhor concebidos em casas ou em apartamentos, é preciso conforto, cama e bar. O mergulho entre o passado e o futuro, residir fora de toda a divindade. Crio um deus. Crio ergo verbo.
A literatura é minha corrupção divina.

 não há casa

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