POR PROFESSORES QUE LEIAM

                                                Leo Barbosa

                                    (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                       Por professores que leiam

      Por que será que nossos alunos passam onze anos na Educação Básica e chegam aos 18 anos de idade sem saber ler, escrever, ouvir e falar de maneira satisfatória? Cansados estamos de ver os elevados índices de reprovação dos discentes brasileiros.

    Sem exagero: não raro analfabetos ingressam em Universidades, e semianalfabetos estão ministrando aulas pelo país afora. Já me deparei com professores que dizem que não gostam de ler e que são incapazes de produzir um texto coerente e coeso. Então, como esses profissionais, independentemente em qual matéria curricular atuem, podem convencer os alunos da importância do ato de estudar e ler se eles mesmos não o fazem?

    Ninguém me argumente que a falta de tempo ocorre por causa da enorme carga-horária que os docentes assumem para que (sobre)vivam, como forma de justificar a renúncia à própria capacitação. Tampouco me digam que os baixos salários impedem a aquisição de livros. E as bibliotecas? Não existem ou estão defasadas? E o que dizer de pessoas próximas que possam emprestá-los para leitura?

    O ofício de professor deve ser para pessoas inquietas. Muitos teóricos, que não ficam apenas na teoria, já disseram que o professor deve ser aquele que desperta a curiosidade, que “provoca a fome pelo conhecimento”. E mais: o profissional da Educação deve mostrar convencimento naquilo que prega.

   Não devemos nos acomodar a essas justificativas para camuflar nosso fracasso, mas em alternativas que nos conduzam ao aperfeiçoamento da nossa profissão e, consequentemente, da nossa postura de cidadão. Se você é professor e não está nada satisfeito, então, por favor, faça a cortesia de desistir o quanto antes, porque provavelmente cederá à mediocridade, o que naturalmente ocorre com quem não tem apreço pelo que faz.

    Corre-se o risco de ao invés de professores nos tornarmos meros reprodutores de um saber sem sabor, de um conhecimento estanque e silenciador tanto para com os docentes quanto para os estudantes. É preciso refletir sobre as práticas educativas, questionar-se, duvidar do que os livros didáticos oferecem. Como ser um bom professor se nem o livro didático, material muitas vezes imposto pela instituição de ensino, o mediador do conhecimento não sabe analisar?

     Esse texto não tem como objetivo culpar os professores pelos altos índices de analfabetismo do país, mas promover uma reflexão sobre nossa postura perante nossas práticas.

    Muitas urgências marcam nossa vida pessoal e escolar : entregar notas, cuidar de um parente,  ministrar aulas em outra escola para aumentar a renda. Com tantas tribulações, resta pouco tempo para olhar com calma para nós e para os nossos alunos. Resta também quase nenhuma iniciativa coletiva dos docentes, porque quase não há disposição individual. Não queiramos ser mais um no meio da multidão.

      Interesse-se por si, pela profissão, pelos alunos. Amor não pagará nossas contas? Pagará sim, porque com amor nós lutamos, avançamos, nos destacamos, vencemos as lutas e os lutos diários de qualquer profissão.

                                                                       Leo Barbosa é professor e poeta

Anúncios

Uma ideia sobre “POR PROFESSORES QUE LEIAM

  1. cironogueira

    Oi Leo,

    Seu texto abarca um monte de elementos do problema da educação básica brasileira que se tomados individualmente já dariam infinitas discussões. Rolou um incômodo de minha parte pois sua orquestração dos argumentos converge para a ideia de que melhorias substanciais em todo o barco chamado Educação Nacional poderiam partir de um processo de transformação pessoal originado em cada professor. Não nego a força das transformações pessoais mas temo um pouco a perversidade potencial da evocação de tal argumento neste contexto específico. É que não podemos nem de brincadeira separar o problema estrutural da educação das questões políticas. A educação básica brasileira é/foi/tem sido/está sendo sucateada deliberadamente em função das políticas públicas mais em voga hoje em dia. Imputar uma carga de culpa aos professores que ainda se aventuram no esquema é uma inversão de ônus meio sinistra. Quanto ao cerne do manifesto, o clamor por um hábito de leitura por parte dos docentes, me veio à cabeça um trecho do Verdade Tropical, onde o Caetano conta que depois que botaram ele na solitária da cadeia, a cabeça passou a funcionar de um jeito muito suigeneris. Tentou a leitura, mas mesmo sabendo que se tratavam de livros que lhe interessavam muito, nunca conseguia passar das primeiras páginas. Isso, é claro, me faz pensar em depressão. Pessoas deprimidas mesmo em graus baixos não costumam se interessar por coisas como literatura, e esse infelizmente é um quadro comum em escolas públicas, por exemplo.
    “Se você é professor e não está nada satisfeito, então, por favor, faça a cortesia de desistir o quanto antes, porque provavelmente cederá à mediocridade…” Cara, infelizmente, graças às condições estruturais, grandes cabeças desistiram antes mesmo de entrarem na profissão!
    Vamos refletindo.
    Abraços!

    Resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s