POESIA ADOLESCENTE

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POESIA ADOLESCENTE

Amador Ribeiro Neto

 

Bruna Beber nasceu em Duque de Caxias (RJ) e tem 30 anos. Seus poemas já foram publicados na Alemanha, Argentina, Espanha, Estados Unidos, México e Portugal.  Rua da padaria (Rio: Record), está entre os finalistas do Prêmio Portugal Telecom na categoria poesia. É seu quarto livro.

Saudada por Chacal na primeira orelha do volume, ficamos assustados com a convicção, sem argumentos, do autor de Belvedere: “A Bruna me maravilha. E pronto”.

Uma convicção cega? Ou dogmática? Quem sabe, doutrinária? De qualquer forma o leitor sai da orelha vazio de informação. Cai no livro.

E lê: “mamãe posso comer / essa pipoca? // não pode minha filha / é macumba / macumba não pode comer // e o guaraná pode / ah mãe deixa”.

Outro, intitulado “a senhorinha vaca”. Diz: “fazes inveja / a tudo que rasteja // sobretudo // às minhoquinhas // tão atormentadas / pela fibra ótica // bebê, cágado, o passado / não é veloz // estivesse ainda / em moda o engenho // serias útil / eras minha”.

Esta poeta não entende nada de história? Era do engenho no século XXI? Ou ela quer fazer piada com a vaca, já que a chama de “senhorinha vaca”? Para alguns pode ser engraçado. A mim soa como um texto anacrônico, escrito por alguém desinformado. E sem talento. Chinfrim é a palavra que me ocorre para qualificar este texto. E o anterior.

E o seguinte, feito com o mesmo abuso barato da anáfora. Prática herdada de Angélica Freitas? Cito Bruna Beber: “quanto falta pra gente se ver hoje / quanto falta pra gente se ver logo / quanto falta pra gente se ver todo dia / quanto falta pra gente se ver pra sempre / quanto falta pra gente se ver dia sim dia não / quanto falta pra gente se ver às vezes / quanto falta pra gente se ver cada vez menos / quanto falta pra gente não querer se ver / quanto falta pra gente não querer se ver nunca mais / quanto falta pra gente se ver e fingir que não se viu / quanto falta pra gente se ver e não se reconhecer / quanto falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu”.

De fato, uma reflexão filosófica em tom poético pra poeta marginal, ou neomarginal algum botar defeito. Antes: proclamar vivas, tal como faz Chacal.

Se poesia é a quebra na rotina, um desvio da norma, um imprevisto que alumbra, Bruna Beber está anos luz distante do poético. Mas se poesia é a inalterabilidade institucionalizada, sem um mínimo de zelo pela linguagem, sem um mínimo de informação estética e ética, sem um mínimo de nada… Então a poetisa está com tudo.

É certamente por isto que Chacal proclama que os quatro volumes de Bruna Beber fazem “volume na minha estante de autores consagrados”. Está claro: o criador tem de beber, digo, lamber sua cria. Faz parte do bom senso do ego autoinflado. Do ego exclusivista que só sabe ver a si próprio. Ou a tudo que seja espelho. A tudo que o reflita.

Pra que saber a que grau chegou a poesia pós Cabral? Basta ter-se uma vaga ideia do que foi o Modernismo. E saber usar uns recursos mancos dos manuais de versificação poética.

Uma anáfora aqui. Outra ali também. Mais outra. Alguns poemas feitos com versos dísticos. Pois bem: de dois em dois a poetisa enche o papo.

ImagemBruna Beber

Publicado pelo jornal CONTRAPONTO, João Pessoa-PB. Caderno B, coluna “Augusta Poesia”, dia 27.06.2014, p. 7.

 

 

 

 

 

 

 

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4 ideias sobre “POESIA ADOLESCENTE

  1. Juvenal

    “nogueira na missa do galo

    será
    tem de ser assim
    um fazendo não
    outro fazendo sim
    será
    outro fazendo não
    um fazendo sim será
    o Benedito
    conceição”

    “caconde

    caconde não rima com onde
    não rima com bonde ao rima com conde
    não rima com esconde não rima com porra nenhuma

    caconde é lá
    atrás muito além daquela serra que ainda azula no horizonte


    Judas perdeu onde

    prefeito não instalou bonde
    nunca viveu um conde

    só saudade

    per
    turba”

    Com esses dois poemas do Amador, nota-se que o autor da crítica está muito bem mesmo em posição de criticar a falta de ” um mínimo de zelo pela linguagem, um mínimo de informação estética e ética” da Beber. Se a atuação de um autor como poeta é indissociável de sua atuação como crítico (e eu acredito que é sim, porque em ambos os casos há um trabalho de uma promoção de uma poética em detrimento de outras), então só se pode imaginar que o Amador é ou incompetente como poeta ou cego ou hipócrita, pois cai no mesmo problema que critica em Beber. Ou alguém poderá dizer aqui que esses dois poemas são muito melhores do que os dois poemas que ele selecionou e comentou? Se puder, por favor, estou morrendo de vontade de ver quais os argumentos seriam usados.

    Resposta
    1. AMADOR RIBEIRO NETO Autor do post

      Oi Juvenal, duas coisas:
      1. Obrigado por ler minha coluna e comentá-la.
      2. Não me cabe defender minha poesia. Ela fala per si.
      3. Meu livro “barrocidade” pede uma segunda edição. Enquanto ela não vem você se importa de continuar postando poemas dele? Mas, por favor, respeite, rigorosamente, a forma.
      Obrigado. Abraços. Amador.

      Resposta
  2. Maria Beatriz

    Olá! É a segunda vez que visito este blog. Gostei muito de algumas postagens que vi por aqui, principalmente aquelas com poemas. Mas não gostei do “tom” dessa crítica feita sobre o livro da Bruna Beber. Não li o tal livro, quase nem conheço o trabalho dela, devo ter lido apenas alguns poemas em outros sites por aí. De alguns eu gostei, de outros não, como, aliás, aconteceu com qualquer poeta que eu já tenha lido, até mesmo os meus preferidos. Não faço critica literária, sou apenas uma professora e uma simples leitora de poemas, portanto não sei criticar como um crítico. Sei apenas o que me toca, isso eu sei bem, e é o que importa pra mim, não o resto. Mas essa crítica me pareceu um pouco presunçosa, talvez até ressentida, não sei explicar exatamente, como se o autor estivesse mais preocupado em criticar a poeta do que os poemas. E essa coisa de alguém criticar o “ego autoinflado” alheio, sei não, sempre me parece o 6 falando do meia dúzia. Críticos, escritores, poetas, críticos-poetas, “pensadores” de Facebook, etc., qualquer um escreve por vaidade, necessidade do ego. Até mesmo eu, que em vez de estar lavando a louça de domingo, estou aqui escrevendo opiniões em um blog. De qualquer forma, agora é que fiquei curiosa pra ler o livro da Bruna!

    Resposta
  3. AMADOR RIBEIRO NETO Autor do post

    Pois é, Maria Beatriz, obrigado por voltar ao Zona da Palavra. E, em particular, por comentar meu texto. Agora, se o que te importa é o que te toca, continue tocando. Estamos quites. Boa leitura do livro da Bruna Beber. Abraços.

    Resposta

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