MENINO DO MUNDO (TEXTO INTEGRAL)

                                                  Leo Barbosa

                                  (escritorleobarbosa@hotmail.com)

 

                                               Menino do mundo

 

     Há um mundo que dorme no sótão. Tão só. Ele anseia por uma resposta, mas só ouve seus ecos que o ensurdecem e o retira a visão. Com passos trôpegos insiste em caminhar. Para onde? Está escuro. De onde virá a luz? Mundo arregimentado por burburinhos, pela indiferença.

    Há um mundo em que a lágrima está desamparada e em cada lar os sorrisos são margeados. Quantos de nós não temos guarida para comportar dores… Essas bocas sem expressão. Esses ventres feito porão seco.Quando hão de pôr o feto?

   Ah, mundo. Um menino se hospeda em um talvez e não sabe reconhecer suas próprias necessidades. Anda nesse deserto chamado solidão e às vésperas natalinas não lhe é suscitada nenhuma alegria. Não haverá presentes, presente. Comerá um modesto banquete com desgosto. Nessa estrada o que compensa são algumas lascas de poesia.

   É incrível como consegue nessa aridez ter a esperança de fruto. Serão oásis? Um dia a incerteza se transmutará e outros olhos a ele serão dados. Todo arcabouço tem data para acabar. Nesse fechar-e-abrir-se há contrapontos. A fronha suada. O sobressalto da noite.

    O choro que o descarrega e nem esse consolo o tem mais. Como se pousasse de herói, um herói sem nenhum caráter feito o Macunaíma, mas não tem nenhum colar para o transmutar da dura realidade de ser só. Somente só.  

   Esse mundo estrangeiro aqui e em qualquer lugar resguarda um pão que ele mesmo amassou. O tempo está a comer o seu miolo de cada dia. A morte nos despersonifica. Rompe as esperas e cria outras. Pra sempre um ontem e um amanhã e jamais um hoje.

    Ainda que pudesse ter um devaneio para que assim puder unir presente, passado e futuro. Mas não, não é com bússola quebrada que se ganha rumo. É com lutas diárias, que serão os instrumentais para avançar diante dos lutos eclodido minuto a minuto.

    Que hombridade exercer se os ombros já não suportam o mundo? É apenas um menino, um menino – enfadado desde jovem. Seus dias tímidos estão declarando fim. Quer trégua. Agora vai e vão. É vã. São vãs as lacunas que deixou. Seu legado é um vaso quebrado na sala de estar. Dorme, dorme. Estar não é ser.

   Não é um menino, é um homem no ócio, nutrindo-se da placenta que o abandonou. Amanhã haverá outro parto. Amanhã a partida será a grande solenidade. Mas, e hoje? Hoje ele só tem a dizer que o silêncio é para se metamorfosear-se – do luto à luta, porque liberdade é se sentir confortável em si mesmo.  

 

                                                                                  Leo Barbosa é professor e poeta

      

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