MITOS SEPARADOS

                                                  Leo Barbosa

                                   (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                               Mitos separados

       É ilusório acreditar que o amor não acaba. Todos sabem que este não se exprime a todo momento. Como todo sentimento, o amor também é efêmero. Para que se perdure, é preciso cuidar, senão se debilita até desaparecer. O amor muda de forma, deforma.

    Elisabeth Badinter, socióloga francesa, reconhece em “Um amor conquistado – o mito do amor materno” – que o amor materno existe desde os tempos remotos, mas não necessariamente em todas as mulheres. Também este não é condição primordial para sobrevivência da espécie. Para Badinter, qualquer pessoa pode “maternar” uma criança (o pai, tia, etc…). E mais: não é apenas pelo amor que a mulher cumpre seus “deveres maternais”. A moral, os costumes sociais, ou religiosos podem ser um fator tão determinante quanto o desejo da mãe.

     Eu sei que é difícil assimilar tais afirmações quando se é ou se tem uma mãe maternal, mas estamos tratando de um sentimento humano e nós somos incertos, frágeis e imperfeitos.

    À primeira vista de uma mãe enamorada, um filho é um retrato da perfeição que ela tanto almeja. É a oportunidade de se retratar consigo e com a própria mãe. Basta ter nascido para sentir-se dotada de poder. Mas que ilusão! Nunca se atinge um modelo ideal de filho que corresponda a todas as nossas expectativas.

    É até intrigante quando presenciamos mães que parecem amar mais os filhos viciosos e negligentes mais do que os cheios de honra, modestos, de boa procedência… parece que o mais querido é geralmente o pior. Por quê? Será que a mãe busca se redimir, sente-se fracassada e deseja uma auto-conciliação?

    Os filhos não são mais o fruto de uma convenção social. Ainda que muitos pensem assim. Procriar não se resume em dar continuidade à espécie. Se ainda persiste, essa motivação é de caráter romântico, logo egocêntrico. O casal quer manifestar o seu amor de forma física. É tentativa de perdurar o amor que entre eles existe. Por isso que algumas mulheres aplicam o “golpe da barriga”, não apenas por questões financeiras, mas pela necessidade que têm de sentirem-se desejadas.

    E por que os filhos tanto sofrem com a separação dos pais? Porque eles se percebem objetos falidos desse relacionamento. Nesse momento os descendentes precisarão encontrar um novo horizonte de sentido. Rompeu-se a rede. Alguém pode dizer que mãe sempre será mãe e pai sempre será pai, que o casal se separou, mas os filhos, não. Enganam-se…

     Por outro lado, quando a casa perde “a liga legítima”, quando não há mais harmonia entre os casais, quando eles já perderam sua essência; não é a separação que causará sofrimento nos filhos. Um lar sem amor, sem admiração mútua, sem reciprocidade gerará prejuízo maior. Os pais não têm direito de dar uma herança nefasta aos filhos ainda que eles também sejam vítimas de uma família desestruturada.

     Se o desejo que deu origem aos filhos exauriu, outros desejos devem ser inseridos. Do contrário será a família também um mito…?

                                                                                            Leo Barbosa é professor e poeta

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