A LITERATURA COMO FATOR DE INCLUSÃO

                                     [ Ronaldo Cagiano ]

            Tema recorrente e abordado não apenas nas rodas acadêmicas ou nas discussões políticas, a inclusão social vem se manifestando de diversas formas. Seja nos processos didático-pedagógicos, que buscam a diminuição do analfabetismo em nosso País; seja no acesso à tecnologia digital para comunidades carentes, em que crianças e adolescentes em estado de risco social – e também a terceira idade – em que muitos são alcançados pelos seus benefícios, há um mundo de alternativas que buscam a plena afirmação da cidadania.

            A literatura vem se constituindo, também, num trabalho de resgate e recuperação de uma parcela de pessoas que, por razões diversas, perderam seu vínculo social e humano e amargam um “apartheid” existencial. Nos presídios e hospitais voltados ao tratamento de doença mental, deparamos com trabalhos cuja semeadura vem dando resultados práticos e até emocionais, que contribuem para a um novo processo de ressocialização ou recuperação do indivíduo.

            Um dos bons, entre os inúmeros exemplos espalhados pelo Brasil, é a ação desenvolvida pelo escritor Joilson Portocalvo a partir das oficinas literárias que ministrou em Brasília, particularmente aos órgãos de apoio ao menor infrator ou aos detentos do Núcleo de Custódia, do Presídio da Papuda. Nessas e em outras frentes, esse autor alagoano, pioneiro da Capital da República, não apenas desperta o talento e a criatividade hibernados desses jovens e adultos excluídos da vida civil e produtiva, como faz renascer neles o sentido de comunidade há tanto perdido. Além disso, dissemina uma nova percepção sobre o destinos desses seres alijados e as reais possibilidades de se redimensionarem individual e coletivamente, fora das grades ou das tutelas estatais, tão logo possam conquistas novamente seu estatuto civil e humano pela liberdade.

            Portocalvo, com esse esforço pela restauração completa de jovens e adultos, homens e mulheres que por diversas razões foram proibidos da convivência com os seus iguais, contribui – como fez a sua conterrânea, a saudosa Dra. Nise da Silveira com os doentes mentais em sua Chácara das Palmeiras – para retirar do limbo, por meio da arte, da livre expressão do pensamento e dos sentimentos, aqueles que um dia, por força e obra das circunstâncias, constituíram-se em ameaça e foram sumariamente deletados da vida pública.

            Por meio da criatividade desses cidadãos apartados, sejam os excluídos legais ou psiquiátricos, Joilson revelou-lhes uma dimensão desconhecida, mas possível de ser garimpada no fundo de seus sonhos. Basta conferir os textos, poemas, crônicas, diálogos e pensamentos registrados em duas obras: “Confissões em cadeia”, “Interseção entre dois mundos” (a experiência carcerária de Manoel Gomes Barbosa e seu despertar literário) e “Cadeia de sentimentos”, obras coletivas, que revelam, além do potencial estético, a carga onírica daqueles que, por via da manifestação literária, são capazes de comunicar um universo e uma atmosfera que ultrapassam os muros e os preconceitos e provam que eles estão tão vivos e capazes de (re)tomar o fio de suas vidas.

            A abnegação quixotesca, altruísta e chapliniana de Joilson Albuquerque de Gusmão não conhece fronteiras e agora mesmo, em nova e vitoriosa empreitada, juntamente com Antônio de Pádua e a Ensinamento Editora, começam um fabuloso mapeamento da arte de cordel, com a intenção de valorizar, difundir e despertar o leitor para uma das manifestações mais autênticas e sensíveis da cultura popular. Por meio do reconhecimento da importância de uma literatura da oralidade com seu potencial aglutinador, Portocalvo e Pádua mapeiam temas e situações da sociedade contemporânea. Inaugurando uma coleção de títulos infanto-juvenis, levarão ao leitor, por meio de uma linguagem e de uma narrativa muito peculiares, mas povoadas de sentido humano, histórico e filosófico, questões ligadas ao nosso dia a dia, à nossa ancestralidade e à história viva do nosso povo. São os frutos que começam a colher de “A história de Zé Luando – o homem que virou mulher”, “O viajante e o sábio”, “O jumento que Jesus montou”, “Os dois soldados”, “O advogado, o diabo e a bengala”, “Atitudes que constroem”, “O homem de Nazaré”, “Osvaldo Cruz – o cientista da saúde”, “Mamãe, deletaram a vovó” (explicação do Alzheimer para crianças) , “A cartomante” (adaptação do antológico conto de Machado de Assis), dentre outros.

                        Essas e outras formas de empreendedorismo solidário (e solitário), resultado de um esforço pessoal para valorizar o ser humano desacreditado pelo sistema que o relegou, utilizando a literatura e suas possibilidades como âncora para a uma nova vida, verdadeiro atalho por meio da uma explosão de talento pessoal e emancipatória; ou trabalhando para a difusão da genuína arte que nasce nas feiras do interior, como o cordel, com sua sabedoria e ciência empíricas, mas enraizadas na experiência com a vida e com a natureza – são exemplos desse Brasil que dá certo. Ainda que vivamos sob o rotundo império da mídia avassaladora, com sua patética overdose de mediocridade, como o Big Brother Brasil; em que em tudo, principalmente na cultura, há o nivelamento por baixo, como já nos disse o saudoso professor Cassiano N unes, da UnB; num tempo de banalização perversa e massificante (a exemplo da proliferação das duplas de música sertaNOJO,  do estelionato espiritual que toma conta das redes de tevês por meio de pregações histriônicas de pastores de aluguel e do futebol mercantilista que viceja por aí),  há aidna ilhas de excelência nesse deserto de miserável que pulula nos meios culturais, há os que fazem a diferença.

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