ANTES, SER HOMEM E MULHER

Leo Barbosa

(escritorleobarbosa@hotmail.com)

Antes, ser homem e mulher

        As mulheres enfrentam um desafio maior neste século. Se antes algumas eram mais procriadoras do que mães, se desinteressavam do filho logo depois do desmame. Agora, precisam duelar entre a carreira profissional, visando à autonomia financeira e a uma certa afirmação pessoal. Afinal, o mercado de trabalho está cada vez mais competitivo e exigente e não lhes cabe mais a dependência material imposta pela cultura machista.

    Mas será que uma mulher precisa dar à luz para sentir-se de fato feminina? Segundo a psicanalista Helene Deutsch, não, porque a tendência maternal pode também se voltar para objetos indiretos. Sabemos que muitas crianças são postas no mundo para suprimir uma falta da mãe, como compensação, joguete ou acessório de manipulação.

    Entretanto, a mulher que não tem filhos sofre o estigma da censura ou é vítima da pena. Não procriar é “fugir à ordem natural da vida”. Isso alimenta alguns estereótipos negativos, como por exemplo o de que essas mulheres são egoístas, incompletas, carreiristas, insatisfeitas.

    Uma pesquisa feita pela socióloga Pascale Donati concluiu: “Quando não se tem filhos, quando poderia tê-los, é melhor ser homem do que mulher, viver sozinha do que com companheiro e não demonstrar demais que se é uma mulher realizada. Nessa gradação, ser mulher casada que optou por não ter filhos é mais suspeito […]”.

    É preciso compreender que cada filho é uma “caixinha de surpresas”, um devir. A sociedade não consegue conviver com a existência de pais felizes ou de outros amargos, que se pudessem voltariam atrás… Esse amargor nasce das expectativas fragmentadas ao longo dos anos. O que se espera de um filho é a reciprocidade, um sentimento de gratidão e até cumplicidade. Quem vai admitir que visava obter afetividade? Se confessar, dirão que “está passando na cara os favores feitos”.

    A vida não é feita apenas de sonhos. Quem quiser ter filhos deve saber que após o devaneio da paternidade vem o pesadelo. Esse indivíduo que está em seu ventre ou em seus braços terá vida própria. E um dia nos daremos conta de que as dores do parto não são nada se comparadas às partidas diárias.

    A maternidade/paternidade dar-se-á a partir de nossa herança moral e ética, seja para que nela nos posicionemos contrários, ou primando por postura semelhante. Isso significa revisitar o passado, os amores, os ódios gerados na nossa infância e adolescência.“

O segredo” talvez seja os pais se comunicarem mais com os filhos do que com as próprias expectativas. Então estaremos lidando com um ser humano, não com as extensões do nosso ser, como se fôssemos uma parte e não um todo. Caso contrário, sempre seremos estrangeiros entre nós. Desatados nós.

                                                                             Leo Barbosa é professor e poeta

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s