POESIA É MINHA PAGA

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POESIA É MINHA PAGA

Amador Ribeiro Neto

A década de 90 trouxe uma grande alegria aos leitores brasileiros: a revelação da poesia de Frederico Barbosa. De lá pra cá ele tem se revelado um dos nossos mais expressivos poetas. Livro a livro a excelência de sua obra se comprova. O recente “Na lata” (Editora Iluminuras, 2013) reúne poemas de livros anteriores, agrupados tematicamente, além de apresentar inéditos. Um livro obrigatório e que tem recebido, por parte do público e da crítica, o merecido reconhecimento.

Coisa rara: um talento ser reconhecido por vias adversas. Ao menos historicamente, quase sempre adversas.

Frederico Barbosa foi contemplado com o Jabuti por duas vezes. Em todo sarau que presenciei em São Paulo e no Rio, seus poemas são lidos com entusiasmo. Os leitores gostam de sua poesia, de fato. Os críticos, não conheço quem o desmereça. Ao contrário: sempre que se  manifestam sobre sua obra é para reconhecer-lhe as qualidades.

Sou um entusiasta da poesia de Frederico Barbosa desde seu livro de estreia, que me chamou a atenção para a singularidade, o vigor e dimensão lírico-social de seus poemas. Desde então aguardo cada obra sua com ganas de um leitor voraz. Voraz e cruel.

Certa vez disse a um amigo, também poeta, que meu senso crítico acirrado, em relação à poesia, não se arrefece nem com eventuais poemas que venham a ser escritos por meus próprios filhos.

Mantenho o que disse.

Sou um chato de galocha quando o assunto é poesia. Um velho chato. Implicante.  Ranzinza. Explico: desde criança leio poesia. Na adolescência, e na juventude, escrevi poemas que, décadas mais tarde, lucidamente rasguei um a um. Sorte do leitor. Sorte minha.

Cursei graduações e pós-graduações sempre tendo em mira a poesia. Ou, se preferem, sempre tendo a poesia como grande obsessão. Publiquei meu, até hoje único livro de poesia, aos 50 anos. Faz mais de uma década. Talvez este ano, quem sabe no ano que vem, o segundo livro apareça. Não garanto nada. Estou escrevendo-o desde minha estreia.

Depois de lançado o livro, fui coberto por homenagens e vaias. De antemão eu arriscava quem estaria à esquerda, à direita e ao centro quanto à minha estreia. Enganei-me poucamente. Antevisão? Cartas? Búzios?

 Nada disto: a consciência de linguagem sempre norteou meu trabalho. Ela é minha vela. E âncora. Sigo navegando. Ou parado nas águas dos mares. Sempre mergulhado na poesia.

Consciência de linguagem = fazer sabendo que o rigor é a marca d’ água: está ali, sensibiliza o leitor, mas esconde “na fábrica  o suplício do mestre”.

Leciono Teoria da Poesia há quase meio século. Apenas para alunos de cursos de Letras. Com os senões corriqueiros dos maledicentes e/ou entendidos, o que sei fazer, ou ao menos o que aprendi a fazer, é lidar com poesia. Poesia é meu pão. E meu circo. Poesia é minha paga. E minha praga. A poesia de Frederico Barbosa, e mais meia dúzia de outros poetas contemporâneos, mais meus alunos, me provocam. Me movem. Me deslocam. Me instigam.

 (Publicado pelo jornal CONTRAPONTO, Caderno B, p.2, dia 21/02/2014)

 

 

 

 

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