GÜNTER GRASS E OS RATOS

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GÜNTER GRASS E OS RATOS

Amador Ribeiro Neto

 A natureza arrasada pela devastação humana. O mundo recoberto por uma fina poeira radioativa. Bombas de nêutrons. Construções arquitetônicas intactas. Um sobrevivente para contar a história.

Tudo sob medida para ser o relato do óbvio. Mas o resultado não é um reles blecaute. Nem mais um engodo na esteira da “science fiction. O que temos é uma arrojada narrativa acerca do dilaceramento do homem e do mundo. Fim da espécie humana e surgimento de uma raça ágil, vibrante, inteligente, esperta e, acima de tudo, audaciosa: a dos ratos.

É isto que se lê do começo ao fim de A ratazana, romance do Nobel de Literatura Günter Grass (tradução de Carlos Abbenseth). A exemplo de obras anteriores como O tambor e O linguado, o cenário volta a ser Danzig (atual Gdansk). É aí que História e mito, fábula e filosofia, realidade e sonho, passado e presente e futuro se fundem num universo de “palavras provocantes”.

Provocante e poético, Grass constrói um texto apocalíptico de desesperado amor pelo Homem. Tudo começa com um estranho pedido do narrador: “De Natal, um rato eu desejei”. E recebe aos pés do pinheiro enfeitado, “bem ali, no lugar do Presépio”, uma gaiola de arame com o rato. É o advento de uma nova era: a pós-humana.

Mas a coisa não é tão fácil assim. Não é num piscar de olhos que somos atirados para o fim do mundo. Rompendo com os limites do documental ou meramente formalístico, A ratazana nos leva a uma viagem dentre as “n” viagens do livro.

Da Arca de Noé, da qual os ratos são expulsos, à nave espacial que gira ao redor da Terra levando a bordo o único sobrevivente da espécie humana, o mundo histórico, antropológico, mítico, político, cultural é visitado/desvendado com a verticalidade de que só os escritores são capazes: verter a mentira, enquanto mentira, em realidade. Como diz Barthes: “inexprimir o exprimível”. Ou seja: despojando-se de qualquer didatismo temático, abarcar a palavra como meio e fim de trabalho. O resto são firulas.

Ao dividir o romance em 12 capítulos que, subdivididos, interagem entre si gerando um terceiro momento puramente conceitual, Grass constrói uma grande espiral: a do romance em si e a de sua feitura enquanto obra de arte.

Passo a passo, capítulo a capítulo, o leitor é convidado a adentrar nesta espiral e empreender, quem sabe, a mais arrojada dentre as viagens deste livro. A do leitor/narrador que não teme “dobrar o Bojador” atrás de um sentido novo para a literatura – e para o mundo, consequentemente.

Irreverente, atrevido, ousado mas acima de tudo cáustico, Grass nos chama à vida através de um conto de fadas pós-moderno, aliado da ficção científica e estreitando limites com a literatura fantástica. Um universo nada simples, convenhamos. Algo como o romance da era do pós-tudo.

As múltiplas linguagens – cinema, pintura, poesia, arquitetura, vídeo, teatro – estão presentes neste romance que pede reiteradas abordagens, tal a variedade do número de narradores e entrelaçamentos de linguagens.

Literalmente o leitor viaja pelas espirais do tempo e do texto. E só lhe é dado saber uma coisa: o Homem segue sua viagem. De mal a pior.

No vaivém das viagens desta narrativa somos desafiados a dizer a que veio Günter Grass neste livro. Chamado de obscuro e grosseiro por uns e de antiutopista por outros, este romancista que também é poeta, artista plástico e dramaturgo, cutuca com vara curta a sensibilidade e a inteligência do leitor brasileiro nestes tempos de tantos modismos ecológicos e quetais.

Do caos que é o mundo pós-humano o narrador (aquele que está na nave espacial, circulando ao redor da Terra) conversa com a ratazana e tenta recolher os cacos do que restou da Grande Explosão – sem dúvida, a Terceira Guerra. Assim, desfilam ratos que se movem desde a Antiguidade, de um lado para o outro do mundo. A nova Ilsebill tripulada por cinco instigantes mulheres que dirigem o barco numa expedição científica com pausas pra tricotar. Um anãozinho, o Sr. Matzerath, dirigindo-se incessantemente à Polônia. O linguado que fala com Damroka, amante do narrador. Joãozinho e Maria, a Madrasta Má, Chapeuzinho Vermelho, o Príncipe e tantas mais personagens dos contos da carochinha orientados pelos irmãos Grimm em pessoa. As inúmeras expedições históricas afundadas e das quais os ratos sempre se safam. O Solidarnósc, sua marcha e seu simbolismo. Os “punks e a histórica ligação com os ratos. Etc.

Fazendo de A ratazana um libelo contra a desumanidade do próprio homem e à semelhança de Sterne, Proust, Machado e Joyce, Günter Grass constrói seu livro continuamente numa linha espiralada que, a cada volta, convida o leitor a ser co-autor da narrativa, navegante que “vê a luz de mil trovões / o céu abrir o abismo à alma do Argonauta”, como canta Fernando Pessoa.

Semelhantemente ao livro Mensagem, do citado mestre português, A ratazana celebra a vida ante a derrota e alerta para a necessária e urgente reeducação da espécie humana.

 ImagemGünter Grass

 

 

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