As vistas de quem?

                                                          Leo Barbosa

                                         (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                                    As vistas de quem ?

     Há cegos que têm tudo longe da vista, mas perto do coração. Há aqueles que perdem de vista o coração. E ainda há aqueles que vendem a vista seu cardiorgão. Ferdinando era deficiente vis(uau), desprovido de interjeições. Vendo-o assim tão inerte, creditavam-lhe a adormecência. Era assim desde o seu princípio: a mesma sonolência diante de uma vida-zoada . Solidão passara a ser um adjetivo. Acabadas as comunicações, ele agora é um pássaro que cansou de voar. Anda a pé. Esse desconcerto do mundo é desconsertante. É camoniano sendo Ferdinando. E esse “ando” dá uma ideia, por ironia, de continuidade. É o “gerônimoo” de uma queda. Contradição? Talvez.

   Sempre fora metódico, mesmo quando acreditava ver. Já intuía que sua casa seria de cego. Seu alojamento; sem alongamento. Encasulou-se nas coisas desimportantes, ou seja: não porta instantes. A vida como um livro na estante que se lê em um instante.

   Como G.H, personagem de Clarice Lispector, sentia a falta de uma terceira perna, mesmo sendo-a inútil, como suspeita-se do apêndice humano. Quem acolherá o susto de todo dia ver-se no espelho um homem com traços feitos à noite?

  A mudez não lhe foi repentina. De tanto em tanto foi se sentindo um excessivo falador. A cada mudança ele emudecia mais. Mudado e mudo. Certa vez, escrevera que o silêncio não é o consentimento, um acovardamento diante das coisas trazidas pelo mundo, mas um estado de contemplação somada com a indignação do “sendo” das pessoas. E não era cego? Tanto faz, cegou-se escutatoriamente.

   Queria ver tudo e nesse conglomerado de imagens não gostou do que viu. Viver é uma sequencia de milagres. Ele era um constante São Tomé. Por tanto querer ver, não viu. Não depender deixa a gente muito só.

  Numa manhã, ele resolveu sair de casa. Foi ao mar. Com o cheiro da maresia lembrou-se que esse mesmo aroma permeava o banheiro de sua casa. Chegou perto das ondas. As águas enroladas se suicidavam na areia e depois retornavam a sua imortalidade. O seu maior desespero talvez seja o de não poder enxergar seu mundo por inteiro.

   Vem um barco a vela velar por mim. Já não há como negar me fazendo de terceiros. Essa voz alheia é mais minha do que nenhuma outra. Meus tímpanos tímidos temem a mim.

     Enceguei-me e não cheguei em mim. Fui individual. Agora, sou Dual, sou eu e nós. Revestindo-me do não-sei-o-que, não me revi. A vista perdida. Numas investidas me agasalhei para sentir frio.

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