UMA TURMA DA PESADA


           
 Ronaldo Cagiano

            Lançado em 1992, “O desatino da rapaziada”, obra do jornalista e escritor mineiro Humberto Werneck, recebeu uma reedição comemorativa pela Cia. das Letras, numa homenagem aos vinte anos de seu lançamento.

            Além da elegância de uma prosa fluente e bem-humorada, peculiaridades de seu estilo, Werneck consolida a memória definitiva de um período importante da história literária de Minas Gerais. Época em que a produção artística e intelectual eclodia a partir de movimentos estéticos, tendo no tradicional Suplemento Literário de Minas Gerais uma de suas caixas de ressonância, órgão vinculado à imprensa oficial, que cumpriu importante papel na revelação de muitos dos nomes que hoje pontificam na ficção e na poesia brasileiras.

            Werneck passa em revista à sagrada mitologia desse tempo, ao ambiente efervescente de várias gerações, que desde a vanguarda do Modernismo (como o grupo da revista “Verde”, de Cataguases) foram culturalmente férteis para Minas e o Brasil, com seus personagens responsáveis pela constituição da intelligentsia mineira, muitos deles tendo firmado suas carreiras no Rio e em outros estados. Nesse panorama, o autor ressalta o papel e importância de suas vidas e obras no universo das Letras, onde despontaram Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resende, Murillo Rubião, Cyro dos Anjos, Pedro Nava, Autran Dourado, Ivan Ângelo, Manoel Lobato, Hélio Pellegrino, Fernando Sabino, Guilhermino César, Rosário Fusco, Roberto Drummond e tantos outros.

           Misto de relato, crônica, análise, depoimento e ensaio, coadjuvado por farto material iconográfico, “O desatino da rapaziada” é um percurso delicioso, poético e sentimental de um jornalista hábil e reconhecido. E o fazer esse inventário afetivo, mergulha na Belo Horizonte de antigamente, descortinando as relações de cada protagonista não apenas com a literatura e o jornalismo, mas com a cidade e seus pares, deixando a nítida sensação da existência de uma verdadeira pátria espiritual, fruto da coesão e solidariedade desses grupos.

               Humberto Werneck contribui com essa obra para o registro definitivo e intocável dessa época de ouro em nossas letras, em que idealismo e engajamento atravessaram gerações, algo raro num cenário como o de hoje tão estereotipado e midiático, seduzido pelas conveniências mercado e viciado pelas patotas e igrejas mercenárias que dominam as redações dos jornais e dos suplementos culturais em todo o País.

Mais que lembrar aquela turma da pesada, a obra werneckiana oferece formidável referencial a leitores, escritores e  estudantes,  um documento sincero e fiel, inesgotável fonte de deleite e pesquisa, para quem queira conhecer e entender o desatino (tão vital e necessário) dessa rapaziada sem igual.

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