S O M B R A S

Conto de RONALDO CAGIANO

Da morte, só sabia ele o que todos sabem:

                   que ela nos toma e nos atira no silêncio.

                                                     Rainer Maria Rilke

            Agora eu sei que aquilo se chamava partida.  

            A sombra das pessoas nas águas do rio Pomba, quando cruzei a ponte velha levando meu irmão á última morada, abastecia de horror aquele abril sem fim,que até nos despedaça. 

            Era uma caminhada sem-sentido, o rosto grave das pessoas, o silêncio dizendo tudo, a solenidade nos gestos e olhares, e a gente fazendo um trajeto que nunca desejou. 

            Eu não me esqueço de como ressoava em mim o poema de João Cabral: “este rio/ está na memória/ como um cão vivo/ dentro de uma sala”. Uma sentença que me lembraria para sempre o dia mais longo de nossas vidas, que se confundiam com a “vida” que ali seguia, inerme, diante da inexorabilidade da indesejada das gentes. As Parcas, mais uma vez, deram as cartas e de forma alguma eu conseguia entender de que barro somos feitos. 

            Quanto de mim seguia junto com aquele féretro. A sensação de desconforto íntimo se acentuava com o luto expresso em cada rosto, dos meus e dos  que traziam a parcela mínima, mas inesquecível, do adeus.  Um destino cortado ao meio e a faca habitando a pele.  

            O rio lá embaixo, com as silhuetas que se revezavam, passava apressado como a existência tão logo fatigada e que era levada, com constrangimento e dor, pelos que ficariam para sempre com o sorriso interrompido, a felicidade interditada por um acidente. A ilha dentro de nós bloqueando os sonhos, a colher travada na boca, um filho que nunca soube além de um horizonte partido, porque engatinhava no absoluto da existência, buscando no entretempo de suas convicções todos os tempos de uma vida. “Uma vida que poderia ter sido e não foi”, como me confidenciou o poeta sobre as lições de não ser visto, tão compulsórias e injustas, porque maior equívoco não há que drenar um sonho mancebo. 

            Nós morremos todas as mortes e tantas vezes naquele cortejo entre a capela e a necrópole. Mas as sombras que se escalonavam na água falavam de um entardecer maior em nossas histórias, véspera de uma noite que não saberíamos medir, mas que abrigaria suas traições antes mesmo de o galo cantar. Aquelas sombras ainda estão me olhando, com o mesmo olhar de meu irmão quando semeou seus versos num saco de padaria, antevendo que o fermento hierático de sua doida esperança seria renovado a cada dia, como um alimento para os que ficaram, porque seu tempo não admitia disfarces, o café quedaria frio na xícara numa mesa qualquer da casa, o espanto na face de tantos que regressariam depois de entregar o corpo à terra, esta compactada com o húmus de lágrimas conhecidas ou prantos clandestinos, as pernas pânicas de minha mãe procurando apoio, a primeira derrota em nossa abundante história familiar.

 

           Ele não precisava ir embora, muito menos naquele domingo de sol pálido e notícias tristes. O céu podia esperar, porque havia outras urgências a corrigir. Aquelas sombras ainda vigoram dilacerantes em mim.

                                                                             (Do livro inédito, “Todos os desertos”)

Uma ideia sobre “S O M B R A S

  1. Basilina Pereira

    Muito bonita e sentida a sua crônica, Ronaldo. Realmente há várias formas de partir, e essa é a mais doída e a mais certa, contudo. Vc soube com maestria dosar as palavras e fazer com que elas coubessem na sombra, sem se ocultar. Parabéns!

    Resposta

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