MEU JOVEM FILHO

Amador Ribeiro Neto

para o meu filho pedro, in memoriam

o mau agouro de agosto
nublou 30 de julho com as tintas corrosivas da morte

no meio do meu amor e zelo de pai
fui obrigado a medir os passos do berço

de meu filho
até sua insepulta sepultura \

num tiscar do tempo
engolfando aos borbotões seus e meus pulmões

águas revoltas
solvem com avidez o corpo do meu filho

[ como sal
em água ]

nem um fio de cabelo resta de seus
24 anos de puríssima juventude-luz

havia um rio no meio do caminho e
o fatal mergulho no escuro

um único e atroz
embate com

o paredão de pedras
encobertas pelo mar subfluvial

e meu filho boiou
inerte pra nunca mais respirar

eu o pai encontrava-me alienado numa
clínica psiquiátrica

[ pai também vive revolto em turbilhões de
pensamentos-cacos que molestam

um sujeito comum
que tão só e somente

luta pra manter uma
saúde comum ]

eu antevira a lúcidaimagem do meu filho
na noite anterior

envolto num grosso saco plástico
retirado das águas ainda pesadas

ah na certa os excessos medicamentosos
gerando a clarividente antevisão dantesca

um filho não morre antes do pai
o pai foi feito pra morrer antes

um filho não morre antes do pai
o pai foi feito pra morrer antes

a imersão do corpo do filho
craveja a memória do pai, do irmão, da irmã

filho, irmão, tu, submerso nas águas,
tens batismo às avessas

batismo de corte de ceifa
de morte

filho onde anda a luz
de teus olhos azuis?

onde as pernas jogando passos
como um andarilho bailarino, filho?

olho pro mundo e a prostração maldita
recai sobre mim num abatimento funesto

desgraçada luz filha da puta
que cegara meu filho pra toda vida

desinfeliz dia de trevas aquosas
maldição trevosa sobre a falta que fiat

trucidado meu coração
é caudal de sangue que im(ex)plode

diante de tua falta, filho
eu contigo me asfixio

sufoco na tua afogadura
na estrangulação da tua execução

os céus em imolação
colhem a ceifa prematura

a natureza é carrasco verdugo carnífice
executor algoz assassino que

se alimenta de teus despojos mortais
ainda tão juvenis

quisera eu cosê-la (a natureza)
a canivetadas a facadas a punhaladas a espadadas

a enxadadas a
machadadas e sová-la

até devolver-me o filho
intacto em sua alegria ensolarada

de meu menino
do rio

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5 ideias sobre “MEU JOVEM FILHO

  1. mex blanc

    meu amigo,
    só você pode conhecer a dor que você ainda sente, pois é uma dor que o tempo não apaga, apenas esconde nos acontecimentos da vida. E somente cada um conhece a sua. contudo, se abra para o que está ao nosso lado em silêncio de respeito. O amor, a vida, são muito maiores que os cinco sentidos. O amor não se perde, nem a companhia se perde. A morte não é o fim da vida mas, uma grande promoção desta. Uma grandissima evolução do amor que a bem conhecer-la nos traria mais felicidade que a própria vida. Não é uma separação mas uma grande evolução das relações dos afetos, tão grande que nos confunde. Não te digo por filosofia mas pela experiência da perda e do reencontro e por um grande afeto por você. Procuremos na vida o que está vivo, bem ao nosso lado. Vamos falar mais
    Seu amigo Messias

    Resposta
  2. maria nascimento

    nossa! mesmo quem nunca viveu algo assim, teletransporta- se para dentro do poema e quando respira tem um nó na garganta…profundo…

    Resposta

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